Opinião
O lado lunar | O maravilhoso mundo do lixo
Somos todos um tudo pouco nada maximalistas e acumuladores; e que à questão supra- existencialista do que somos, e para onde vamos, se deve juntar “para que raio precisamos, precisámos de tanta coisa?
Na escala não-oficial do que pode infligir trauma psicológico e, quem sabe, existencial, mudar de casa está nos cinco primeiros lugares deste “top”.
Temos a tendência de tudo humanizar, a começar pela casa onde passámos vários anos e que enchemos do tudo e de mais alguma coisa, material e imaterial. Recordamos cada mossa na parede, cada fechadura estragada, cada risco na parede do quarto dos nossos filhos, para medir “onde é que eles vão parar?”, como memórias vivas dos bons tempos que ali passámos. Ou dos maus, dependendo da razão da mudança.
Em Portugal, o nosso temperamento melancólico que tudo apura, junta-se ao nosso problema de habitação para fazer da mudança de casa um momento charneira das nossas vidas, para o bem ou para o mal.
Viver de sacos, de malas, de refeições pré-preparadas, de rotinas que dispensam ginásios à conta do treino de força que é desviar, carregar, mover, torna-se a constante da nossa vida nos últimos meses, semanas e dias antes do nosso grande êxodo e só desejamos contar os minutos o mais rapidamente possível até finalmente pousarmos no novo ninho e começar o trabalho inverso de desempacotar, arrumar, verificar, relembrar enfim.
Outro processo que se reveste de uma fundamentalidade que ignoramos até neste estarmos em pleno, é o da seleção do que pomos ou não pomos no lixo. Aí entram critérios de memória, de praticidade, (des)prendimento ou muito pelo contrário, até que começa a marcha infinita de monos e sacos de roupa antiga dirigida a destinos que são mais improváveis do que o mobiliário urbano designado para receber os despojos da nossa vida.
Na rua que agora deixo há um ecoponto: lixo normal, papelão, latas e embalagens, vidro. No espaço que existe à volta pode-se, pontualmente, colocar lixo de outra natureza ou dimensão, porém desejo a todos boa sorte ao tentarem combinar algo ao vosso tempo e horas com os serviços de recolha camarários que deveriam ter esse trabalho, conforme as competências neles investidas.
Se somos aquilo que comemos, se a nossa dieta nos define enquanto indivíduos e povos, o que mandamos fora também tem muito para dizer sobre nós, desde já que somos todos um tudo pouco nada maximalistas e acumuladores; e que à questão supra- existencialista do que somos, e para onde vamos, se deve juntar “para que raio precisamos, precisámos de tanta coisa?”
Também podemos ler no lixo as necessidades dos outros. E onde funcionários falham, há toda uma rede invisível de imigrantes, de pessoas ligadas à solidariedade que recolhem de forma empenhada e gratuita tudo aquilo que já não servindo para nós, serve para eles.
Se bem que haja alguma angústia neste pensamento, a velha esperança e satisfação de que algum menino com menos condições financeiras calce as sapatilhas de marca, dadas por alguma tia, às quais o nosso filho torceu o nariz, ou que tanto cresceu que já não lhe serviam, traz algum conforto esquisito a toda à equação de quem deita fora e de quem coleta.
Impossível de negar é o humanismo humilde de quem verdadeiramente recicla em prol de quem não hesita em meter todo um fogão no lixo. Podemos até dizer que este movimento, injusto como estes tempos selvagens de capitalismo, que não dão hipótese de recuperar uma torradeira, porque já ninguém a arranja, tempos em que giramos à volta do “trocar por um novo”; através dos seus anjos da guarda da rua não só nos ensine a poupar os nossos objetos a uma vida curta, como nos faça aprender virtudes e contingências importantes para o nosso comportamento em sociedade.
O lixo é muito mais o que mandamos fora.
É a pegada orgânica de quem somos e um verdadeiro exercício de cidadania.