Opinião

O ladrão de casas vazias

26 fev 2026 08:01

Uma janela aberta e ignorada pelo dono da casa significa entrada certa

Hoje, vou falar-vos de um ladrão invulgar, único, diferente que assalta, imagine-se, casas vazias. Efetivamente, este ladrão de casas vazias observa comportamentos, controla horários, vigia famílias, vive de salto em salto por cima de muros, sobre telhados e esgueira-se por janelas entreabertas e portas mal fechadas. É frequente dormitar em bancos de jardim, abrigar-se sob árvores, deitar-se sobre cartões e aconchegar-se com roupas que vai encontrando. Ninguém sabe, mas a verdade é que este ladrão de casas vazias procura, afinal, casas cheias... Confuso? Pois bem, vou desenvolver.

Escondido nas esquinas, este ladrão de casas vazias persegue a sua vítima. Assume, por vezes, uma passada instável, vacilante, trôpega. Depois, estuga-a, continuando a perseguição de forma ágil, firme, segura e confiante.

Uma janela aberta e ignorada pelo dono da casa significa entrada certa. Enrola-se por ali e espera que a família se reúna, em vão, diria eu, pois, afinal, a casa onde entrou, aquela que parecia cheia, inundada de tudo o que é bom, abundantemente recheada de objetos de excessivo valor, onde a fartura é a palavra de ordem, está, no entanto, vazia. 

Cada uma das divisões é ocupada por cada um dos elementos da família e todos têm tempo para viver e comunicar com o exterior, porém ninguém tem tempo para viver e comunicar com o interior onde vive. As refeições são feitas em horários alternados. A televisão assume um som de fundo para que, ilusoriamente, se sinta que aquelas paredes estão habitadas. Um esconde-se no quarto, outro habita a sala, outro, ainda, avança para o escritório... E a casa? Ui, era tão cheia, tão enormemente guarnecida que, face à desunião, depressa se torna vazia, oca, sem coração, desguarnecida de vida... É então que ele aparece a um ou a outro elemento da família, experimentando a sua sorte. Resultado?  Gritaria e medo 
ao vê-lo e umas pessoas fardadas que o levam dali.

Desgastado com os excessivos e trágicos desfechos e farto das tentativas fracassadas de roubar o coração de alguém este ladrão resigna-se. Volta aos bancos de jardim, à sombra das árvores, aos cartões e a às roupas perdidas. Vai vivendo, assim, a sua existência, desalentado, deambulando pelas ruas até ao dia em que um bafo quente trazido por uma aragem fortuita lhe aquece as orelhas.  

O calor vem de um lugar onde as paredes sujas, frias e nuas e as portas e janelas velhas parecem convidá-lo a entrar. Receoso e calculista, temendo ser preso por aqueles de farda, cede, no entanto, à curiosidade. E quem diria àquele felino ladrão de casas vazias que seria ali, naquele pequeno espaço isento de futilidades e de acessórios perfeitamente dispensáveis, que ronronaria, languidamente, ao colo de crianças de uma família feliz que enchia de vida aquela casa vazia? 

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990