Opinião
O preço de seguir os outros
A Europa não está condenada, mas precisa de recordar que tem interesses próprios. Decidir a quem compra energia, defender a sua indústria e exigir contas a quem a governa.
Durante décadas, a Europa foi o continente que parecia ter aprendido com as suas guerras e fez da paz e da prosperidade o seu orgulho.
A guerra prossegue na Europa, a indústria definha, a energia custa várias vezes mais do que nos Estados Unidos e o continente tem cada vez menos voz nas decisões que lhe dizem respeito.
A Volkswagen, a Bosch e a ZF cortam milhares de empregos, a BASF e a Audi fecharam fábricas, a Northvolt faliu e as insolvências na Alemanha estão em máximos de uma década.
Aprovámos sanções que nos saíram mais caras do que a quem queríamos atingir.
Perdemos o gás russo barato, que sustentava a competitividade alemã, e passámos a comprar gás liquefeito americano a preços muito superiores.
No verão passado, a União aceitou um acordo comercial com Washington que lhe impõe tarifas de 15% e compromissos de compra de energia e de investimento irrealistas. A isto só se pode chamar vassalagem, e não aliança.
A Europa paga a fatura da guerra e continua sem relevância política. A crise é também de liderança e de valores.
Faltam líderes à altura, e abundam os escândalos: o Qatargate, no Parlamento Europeu, ou as mensagens entre a presidente da Comissão e o presidente da Pfizer, cuja recusa de divulgação o Tribunal Geral da União censurou.
A Alemanha faz da segurança de Israel razão de Estado e manteve o apoio político e o fornecimento de armas quase sem condições, mesmo depois de investigadores da ONU e organizações de direitos humanos falarem em genocídio em Gaza.
Um continente que se apresenta como defensor dos direitos humanos e fecha os olhos quando as vítimas não convêm perde credibilidade.
Dentro da própria União, a deriva é visível. Na semana passada, na Polónia, a polícia de intervenção cercou o Tribunal Constitucional enquanto juízes apoiados pelo governo de Tusk tentavam afastar o seu presidente.
A oposição, o próprio tribunal e o presidente do Supremo falam em golpe. O governo afirma estar a restaurar a legalidade.
Quem quer que tenha razão, é revelador que um país da União resolva assim uma disputa.
Em Portugal, nos últimos dias, a PSP avançou sobre acampadas de jovens que reclamavam habitação digna, no Porto e em Lisboa, com dezenas de feridos consequência de uso excessivo e ilegal da força por parte da polícia.
Mas quem pede casa e condições de vida dignas deve ser ouvido, e não alvo de cargas policiais.
A Europa não está condenada, mas precisa de recordar que tem interesses próprios.
Decidir a quem compra energia, defender a sua indústria e exigir contas a quem a governa.
Os europeus merecem dirigentes que pensem neles, e não em agradar a Washington. Sem isso, continuaremos a assistir ao nosso próprio declínio.