Editorial

O que têm os festivais de música a ver com eleições locais?

18 jun 2026 08:23

Algumas manifestações culturais só existem porque os municípios pagam. O público recebe uma refeição de borla ou come bife do lombo pelo preço de uma perna de frango

A resposta mais rápida: tudo.

Os municípios têm financiado espectáculos ao vivo com cachês que os protagonistas, mesmo os mais conhecidos, nem sempre obtêm noutros palcos. Muitas vezes, os eventos são de acesso gratuito ou pelo menos o envolvimento das autarquias (em dinheiro) permite baixar o valor do bilhete e facilita a contratação de nomes de outro modo inacessíveis para a organização.

Todos ganham: os presidentes de câmara, porque pão e circo têm sempre seguidores, os artistas, que somam mais datas na agenda de trabalho, os promotores, incluindo as associações, que assim conseguem cartazes mais apelativos, e o público, que recebe uma refeição de borla, ou, na pior das hipóteses, come bife do lombo pelo preço de uma perna de frango.

Dito de outra maneira: algumas manifestações culturais só existem porque os municípios pagam. Por um lado, há expressões artísticas de nicho, que beneficiam a comunidade e o indivíduo, mas cuja sobrevivência depende de apoios, por outro, num mercado pequeno, até as figuras mais mediáticas são difíceis de rentabilizar numa lógica de actividade exclusivamente privada.

Por exemplo, na Marinha Grande, as festas da cidade costumam oferecer concertos a custo zero para o utilizador – encabeçados por bandas da dimensão dos Calema, Resistência e The Gift, entre outras – que atraem milhares de pessoas e fazem o Parque da Cerca parecer o Parque Tejo durante o Rock in Rio.

Este ano, devido aos efeitos da tempestade Kristin, surgiu a ideia de um festival solidário de dois dias, noutra localização. Os Xutos & Pontapés, talvez os maiores embaixadores do rock português, actuaram no sábado à noite no campo de futebol da Comeira e nem cobraram, no entanto, havia portagem, de 15 euros por pessoa. Resultado: a câmara da Marinha Grande gastou 97 mil euros, a bilheteira rendeu 22 mil. Na reunião de vereadores, o assunto tornou-se política.

O número de festivais de música em Portugal não é um número em que andamos diariamente a pensar, mas é interessante. Segundo a Aporfest, realizaram-se 557 em 2025, um recorde. O presidente da associação que representa o sector, Ricardo Bramão, explicou à agência Lusa que as eleições autárquicas contribuíram decisivamente para engordar o monstro. Este ano, espera-se o regresso à normalidade: “apenas” 300 festivais de música.