Opinião
O Sorriso de Crocodilo anda por aí e não é bonito
Vivemos sob uma ditadura da felicidade encenada. O problema não é apenas a mentira em si, mas o efeito que esta toxicidade exerce em quem a consome
Existe uma forma de “teatro” que acontece diariamente nos nossos ecrãs: um palco onde a vida não é vivida, é editada e vendida como um produto de luxo.
Recentemente encontrei no ecrã do meu telemóvel uma “influencer”, envolta na habitual luminosidade irreal: dentes de uma brancura imaculada, olhos semicerrados num êxtase de alegria e uma pele luminosa.
Por momentos acreditei que era encarnação em pessoa da felicidade absoluta. O contraste entre essa imagem e o que vi pouco depois foi um curioso golpe de realidade. Cruzei-me com a mesma pessoa, ao vivo, numa das ruas da cidade. Onde antes brilhava a alegria, encontrei uma máscara de cansaço. A luminosidade, despojada do filtro de contraste e saturação, revelava uma face cansada e aborrecida.
Aquilo que vi não tinha semelhanças com o que tinha acabado de observar momentos antes. A esta alegria artificial eu chamo de “sorriso de crocodilo”: uma máscara que esconde a autenticidade para alimentar o algoritmo.
Vivemos sob uma ditadura da felicidade encenada. O problema não é apenas a mentira em si, mas o efeito que esta toxicidade exerce em quem a consome, especialmente nas crianças e jovens.
Quando um adolescente, em pleno processo de construção da sua identidade e ainda a aprender a lidar com as suas próprias sombras, é bombardeado diariamente com estas vidas fantásticas de plástico, o resultado é um ciclo devastador de frustração.
Ao olharem para os seus ecrãs, não veem uma montagem, mas sim um padrão. E, ao compararem a sua existência – feita de altos e baixos, de dúvidas, de tédio e de inseguranças – com a ficção da “influencer”, sentem-se fatalmente aquém. A mensagem implícita é cruel: “se não és assim tão feliz, estás a falhar”. É urgente desmistificar este palco.
Precisamos de ensinar os jovens a olhar para os seus ecrãs com o mesmo ceticismo com que olhamos para uma vitrine de uma loja de roupa: sabemos que ali tudo foi arrumado para vender uma ilusão.
A vida real não se mede em likes, nem se expressa numa pose ensaiada. A vida real também é cinzenta, imperfeita, complexa e, por isso mesmo, é infinitamente mais valiosa do que qualquer imagem estática de um sorriso artificial. Precisamos de devolver às crianças e jovens (futuros adultos) o direito à vulnerabilidade.
O direito a estarem tristes, cansados ou simplesmente normais, sem que isso signifique uma derrota. Que o sorriso de crocodilo não nos morda a sanidade. Aprendamos, finalmente, que a felicidade não cabe numa story do Instagram, nem se encontra na sombra projetada por uma tela de vidro.
A vida real, com altos e baixos, acontece lá fora, onde não há filtros que nos valham, e é tão bom que assim seja!
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990