Editorial

Recomeçar... a brincar

26 fev 2026 08:01

Não basta reparar o que existia. É preciso imaginar o que nunca existiu

Há lugares onde o silêncio e o vazio que restam após uma tempestade parecem mais pesados do que os próprios escombros. Quase um mês depois de a depressão Kristin ter escrito uma página negra na história da nossa região, o vento que derrubou árvores, arrancou telhados e semeou o medo parece ainda sussurrar nos ouvidos de muitos, como se quisesse insistir no que foi perdido.

É precisamente perante este cenário de perda que urge falar sobre a importância do brincar. Frederico Lopes lembra-nos, na entrevista desta semana, uma verdade que tantas vezes esquecemos: “em contextos adversos, o brincar é tão fundamental como comer ou dormir”. Quando uma catástrofe desta dimensão afecta espaços e rotinas, interferindo com os ambientes onde as crianças ensaiam o mundo e os adultos desfrutam da sua existência, o brincar deixa de ser um luxo para se tornar numa forma de respiração emocional.

E é aqui que nasce uma oportunidade: a de uma reconstrução com propósito. Cada parede que se ergue, cada árvore que se replanta e cada pátio redesenhado pode transformar-se num convite para reinventar os espaços. Não basta reparar o que existia. É preciso imaginar o que nunca existiu: recreios que acolham o risco controlado, a criatividade sem guião e a natureza como parceira.

Como sugere o presidente da Associação Portuguesa pelo Direito de Brincar, a madeira das árvores caídas pode renascer em troncos para escalar. Autarquias, escolas e comunidades devem assumir que o brincar não é ‘tempo morto’, mas sim tempo vivo, estruturante e libertador. Neste processo, as crianças - tantas vezes esquecidas no fim da fila - devem ser chamadas a dizer de sua justiça: o que desejam, o que sonham e do que precisam para dar asas à imaginação.

Se soubermos aproveitar este momento, a reconstrução das nossas cidades e aldeias deixará de ser um mero exercício técnico para se transformar num gesto de futuro. Porque onde há espaço para brincar, há sempre espaço para recomeçar.