Opinião
Sangue doce
Se os mosquitos conseguem saber ao que sabe o meu sangue antes de me picarem, talvez possam começar a escolher melões
Dizem que os mosquitos picam os de sangue doce. Como se escolhessem o alvo como eu escolho leite-creme: pele tostada, morna por dentro, ligeiramente doce.
Isto é um disparate. E é um disparate por causa da ordem dos acontecimentos. Como é que o mosquito sabe ao que sabe o meu sangue antes de me picar? Se os mosquitos conseguem saber ao que sabe o meu sangue antes de me picarem, talvez possam começar a escolher melões.
Os motivos continuam a escapar-me. A preferência, infelizmente, não.
Há pessoas que entram numa sala e iluminam o ambiente. Eu entro num jardim e inauguro a época da caça. E nem me falem de repelentes. Para os mosquitos que me conhecem, aquilo funciona como tempero. Enquanto um me distrai no tornozelo, outro faz um voo rasante sobre a clavícula e um terceiro espera que eu tenha as duas mãos ocupadas para aterrar precisamente naquele sítio das costas onde só me consigo coçar recorrendo a mobiliário.
E depois há sempre aquela pessoa que comenta: «Engraçado, a mim nunca me picam quando estás.»
Claro que não. Também nunca chove debaixo de um guarda-chuva.
Às vezes, já nem sei se me convidam porque gostam da minha companhia ou porque, estando eu, mais ninguém é picado. O pior disto é que ninguém se lembra de dizer: «Obrigada por teres vindo.»
Mas também nunca ninguém se lembra de agradecer ao cordeiro sacrificial o sacrifício.
Ainda assim, o Verão continua a ser a minha estação preferida. A consideração não é recíproca. Entre sardas, sinais e cicatrizes, chego a Outubro a parecer um dálmata em tons de castanho. Mas basta chegarmos a Novembro para que eu comece outra vez a ter saudades da luz comprida, das noites na rua e daquela ilusão anual de que, no próximo Verão, talvez seja diferente.