Editorial
Tesouros de Leiria debaixo de terra
A ocupação do território é conhecida pelos investigadores, que não têm dúvidas sobre a importância de Leiria para a arqueologia pré-histórica
Só nos últimos meses, ficou a saber-se que São Pedro de Moel conserva o registo mais completo de um período crítico da história do planeta, há 193 milhões de anos, num estudo que confirma Água de Madeiros e Pedra do Ouro como referências globais pela riqueza fóssil, a Colecção de Mamíferos e Pequenos Vertebrados do Jurássico da Guimarota (Leiria) do Museu Geológico LNEG de Lisboa foi reconhecida pela Comissão Internacional para o Património Geológico (IUGS) e a Comissão Europeia atribuiu ao Abrigo do Lagar Velho (Leiria) o Selo do Património Europeu.
Já se conhecia a relevância da mina da Guimarota (de interesse mundial desde a segunda metade do século XX para os cientistas da vida no Jurássico, incluindo vestígios de dinossauros) e do Abrigo do Lagar Velho (monumento nacional) onde em 1998 foi encontrada a Criança do Lapedo (um esqueleto com 29 mil anos, agora tesouro nacional, que revelou informação inédita sobre a convivência entre neandertais e Homo sapiens), mas existe, ao que tudo indica, muito mais por descobrir.
Por exemplo, durante o último máximo glaciar, em que era possível ir até à Berlenga a pé, porque o nível do mar estava 130 metros mais baixo, a bacia do Lis oferecia condições para sobreviver, com nascentes que corriam o ano inteiro, vegetação e animais para caçar. É quase um laboratório que permite estudar o modo de vida das populações de há 27 mil até 19 mil anos. Seis dentes resgatados na zona da Boa Vista, de Homo sapiens caçadores-recolectores, podem por estes dias trazer novos dados a um projecto de investigação que já dura há dez anos.
A ocupação do território em períodos mais recentes (com inúmeros vales e abrigos naturais) é também conhecida pelos investigadores, que não têm dúvidas sobre a importância de Leiria para a arqueologia pré-histórica. Como confirma Telmo Pereira nesta edição: “Praticamente em cada gruta em que se entra há uma necrópole”.