Opinião

Trocado por miúdos | O ferro e o fogo dão fumo

4 nov 2026 14:27

Serão os pregos utilizados na cruz tão necessários para remodelar as casa de quem foi despejado fruto de uma inoxidável inflação? Torna-se algo inevitável, o contacto constante com as cinzas do ar faz-nos chorar, deixando-nos ansiosos, à espera de encontrar D. Sebastião no Idealista

O fogo que alimenta a azáfama do nosso dia a dia não escapa a ninguém. Invade-nos de uma forma tão cruel, não nos deixando ficar com nada do que nos é mais querido. Leva com ele o sentimento de realização de cada um. Apenas somos uma lavandaria de um t3 a arder. Deixámos de parecer humanos, tornamo-nos em bolas incandescentes e fazemos tudo ficar mais quente. Passámos a viver num verão para sempre, onde todos estamos a trabalhar incansavelmente. Desejamos que um balde de água fria possa ser atirado na nossa direção, suplicamos por um mergulho para arrefecer o corpo na praia das desilusões.

O ferro, que edificou a nossa civilização, enraizou-se e cresce tão vigorosamente em nós que nos perfura tal é a sua convicção. Curioso, que ver alguém pendurado de peito rasgado por algo que não teve culpa, comove uma multidão, fazendo-a espalhar uma mensagem, tornando tal tragédia num mote, não se importando de cruzar linhas se necessário. Há uma engraçada repetição histórica que dirige este movimento a uma repressão já antes vista. Quais serão os porquês que levam ao encobrimento de algo que nos enferruja a todos, por quem lamenta toda a diabólica perseguição a que estiveram sujeitos os seus antepassados. Serão os pregos utilizados na cruz tão necessários para remodelar as casa de quem foi despejado fruto de uma inoxidável inflação?

O ferro, que acaba por arder, começa a criar fumo, deixando turva toda uma luta que nos afeta a todos. Quaisquer olhos que estejam em contacto com esta nuvem ficam irritados, lacrimejam. Torna-se algo inevitável, o contacto constante com as cinzas do ar faz-nos chorar, deixando-nos ansiosos, à espera de encontrar D. Sebastião no Idealista. Nesta longa espera é nos induzida uma secretária, um outfit semi-formal e um projeto híbrido em que podes trabalhar às sextas em casa. À falta de melhor, pois o tempo precisa de passar até que a poeira assente, aceitamos cegamente. De tanto tempo imóvel que ficámos à secretária o horizonte começa a clarear e do décimo terceiro andar vemos que estamos encurralados num aeroporto.

Não nos é permitido voar, porquê? O contacto recorrente com o fumo trouxe-nos tumores e infelizmente nem todos nós conseguiremos recuperar, mesmo com tratamento. Para a maioria é a última cena de um filme, pois vivemos numa época onde é necessário ter cabelo para ter casa. Trabalhar já não chega e sem as publicidades nos stories, como é que a L’oreal nos vai sustentar?