Economia
Captar e manter talento é um dos maiores desafios estratégicos
A dificuldade tem vindo a crescer ao longo dos anos. Captar e reter talento tornou-se um dos grandes desafios para a indústria, sobretudo para a de moldes. Cabe às empresas e aos centros de saber promover melhores condições para os profissionais
O problema toca indústrias de vários sectores de actividade, que se deparam com dificuldade em atrair e manter recursos humanos nas suas empresas. Mas a situação tem durado e piorado sobretudo no sector de moldes, onde falta mão-de-obra especializada para exercer várias funções mais técnicas e especializadas.
Quem actua no mercado de formação e recrutamento e a própria Associação Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol) concordam que cabe também aos empregadores, às escolas profissionais, institutos e universidades trabalhar na preparação bem como na criação de melhores condições para atrair os mais jovens para este universo.
“Além das questões de mercado, a indústria de moldes está a atravessar uma profunda transformação tecnológica e digital, em que o cenário de atracção e manutenção de talento se tornaram um dos maiores desafios estratégicos para o sector, dado que as indústrias concorrentes disputam exactamente as mesmas competências digitais e de engenharia”, contextualiza Manuel Oliveira, secretário- geral da Cefamol.
“Ao nível da engenharia e da inovação, é prioritário apostar em especialistas nas áreas de desenvolvimento de produto e projecto de moldes, bem como em técnicos com competências em simulação avançada e reologia. Além disso, a progressiva digitalização e sensorização dos moldes geram a necessidade de integrar engenheiros de dados e de automação industrial, ou seja, perfis orientados para a programação, integração de sistemas ou manutenção preditiva”, prossegue o responsável.
“Esta evolução reflecte-se directamente no chão de fábrica, onde o sucesso reside na fusão entre a experiência prática e o conhecimento digital. Exemplo disso são os programadores e operadores de máquinas, perfis necessários e fundamentais nas empresas devido à exigência de um raciocínio lógico e geométrico complexo para a optimizar processos em tempo real”, aponta Manuel Oliveira.
Atractividade é mais do que dinheiro
A resposta, acredita, “passa por reforçar a atractividade da indústria com uma proposta de valor que vá além da componente remuneratória, a qual é (e continuará a ser) sempre muito relevante. É fundamental complementar esta oferta com planos de carreira estruturados, oportunidades de formação contínua e perspectivas claras de progressão profissional, demonstrando que a indústria de moldes é um sector com elevado potencial de desenvolvimento”.
Em paralelo, considera o secretário- -geral da Cefamol, “é importante investir na qualidade do ambiente de trabalho, promovendo uma cultura organizacional baseada na valorização dos colaboradores, na conciliação entre a vida profissional e pessoal, na melhoria das condições de trabalho e em sistemas de reconhecimento e incentivos transparentes. A aposta na inovação, na internacionalização, na digitalização e na modernização dos processos produtivos contribui igualmente para tornar as empresas mais atractivas para as novas gerações de profissionais”.
A associação do sector também tem actuado para ajudar a ultrapassar este constrangimento. “A Cefamol definiu como uma das suas prioridades de intervenção apoiar as empresas a atrair talento e a aproximar o ensino do mundo empresarial. Este trabalho concretiza-se através de acções de promoção do sector junto de escolas, do incentivo a estágios e projectos conjuntos, e do alinhamento da oferta formativa com as necessidades reais da indústria. O protocolo + Indústria, celebrado com a Universidade de Leiria e Oeste, e a colaboração no programa Leiria IN são exemplos claros desta dinâmica”, aponta Manuel Oliveira.
Em paralelo, acrescenta, a associação “promove planos anuais de formação contínua para actualizar as competências dos profissionais do sector, abrangendo desde as vertentes mais técnicas até às áreas de gestão, organizacionais ou comerciais.
Esta actividade é desenvolvida em estreita complementaridade com as intervenções do Centimfe e do Cenfim, entidades parceiras e incontornáveis nesta área”.
Imprescindível esforço conjunto entre empresas e academia
No que se refere ao tecido empresarial, “têm sido dinamizados programas de sensibilização e capacitação focados na inovação organizacional e na gestão de pessoas. Um exemplo é o Programa Talentum, que analisa, debate e identifica processos e ferramentas práticas para as empresas valorizarem os seus colaboradores e o ambiente de trabalho. No sector, têm também sido desenvolvidos diversos estudos e referenciais técnicos para apoiar as organizações na implementação interna destas boas práticas”, prossegue o secretrário-geral.
Além disso, “as instituições de ensino têm reforçado a sua articulação com o tecido empresarial, criando cursos, programas de especialização e projectos conjuntos. Esta cooperação representa um contributo valioso tanto para a formação e integração de novos talentos, bem como para a actualização das competências activas no mercado de trabalho”. Contudo, observa Manuel Oliveira, “este esforço conjunto continua a ser insuficiente face às exigências do sector. Factores como a demografia nacional, a forte concorrência (inclusive internacional) por profissionais qualificados e a persistente desvalorização social das carreiras industriais continuam a limitar o número de candidatos disponíveis”.
Por conseguinte, “embora o sistema de ensino seja um parceiro essencial, a resolução deste défice de talento exige uma estratégia global. É indispensável uma acção coordenada entre as empresas e escolas, com o apoio de políticas públicas, que promova a atractividade das carreiras industriais e aproxime as novas gerações das profissões técnicas e tecnológicas de forma eficaz”, salienta ainda.
Constrangimento inerente a um sector altamente tecnológico
Carla Ferreira é responsável pela Factor H, empresa sediada em Leiria e dedicada a formação e recrutamento que, entre outras áreas, opera também junto de indústrias de moldes e de plásticos. A especialista explica que existem funções e profissionais mais difíceis de captar, sobretudo na indústria de moldes, um contratempo que acontece desde há vários anos e se prende principalmente com as funções mais especializadas.
“As maiores dificuldades continuam a verificar-se nas funções técnicas altamente especializadas, como projectistas de moldes, programadores CAM, técnicos de CNC, ajustadores, polidores e alguns perfis de engenharia com experiência na indústria. São funções muito específicas, onde a procura continua claramente acima da oferta”, salienta Carla Ferreira.
A responsável pela Factor H considera que existem especificidades do sector que contribuem para esta dificuldade recorrente. “É um desafio que a indústria de moldes enfrenta há vários anos. Estamos a falar de um sector altamente tecnológico, exigente e especializado, onde muitas das competências não se aprendem apenas na escola, mas são desenvolvidas ao longo de vários anos dentro das próprias empresas”, acredita a especialista.
Por outro lado, observa Carla Ferreira, “muitos profissionais experientes estão a aproximar-se da reforma e não têm sido substituídos ao mesmo ritmo. Durante anos, as carreiras industriais também perderam actratividade junto dos jovens, o que contribuiu para o actual desequilíbrio entre a oferta e a procura. Diria mesmo que hoje o desafio já não é apenas a falta de candidatos. O verdadeiro desafio é identificar pessoas com potencial para crescer nestas funções e criar condições para as desenvolver e reter. Os empregadores têm forma de ajudar a ultrapassar este problema, entende a responsável.
“As empresas têm de assumir um papel cada vez mais activo na atracção e retenção de talento. Hoje, recrutar já não passa apenas por publicar uma oferta de emprego. É necessário investir na marca empregadora, na integração, na formação contínua, na liderança e na criação de percursos de carreira. As pessoas procuram projectos onde sintam que podem evoluir”, acrescenta a especialista em formação e recrutamento. Além disso, considera, as escolas profissionais, os politécnicos e as universidades estão a responder às necessidades do sector.
“Temos assistido a uma evolução positiva e existe hoje uma maior aproximação entre o ensino e as empresas. No entanto, continua a ser essencial reforçar esta ligação, aumentando as experiências práticas em contexto empresarial e valorizando as profissões técnicas junto das novas gerações. A resposta a este desafio só pode ser construída em parceria”, adverte Carla Ferreira.
“Na Factor H acompanhamos esta realidade há mais de 30 anos e conhecemos profundamente a indústria da região. O nosso trabalho vai muito além do recrutamento. Ajudamos as empresas a definir os perfis mais adequados, avaliamos competências técnicas e comportamentais e identificamos profissionais alinhados não só com a função, mas também com a cultura e os objectivos da organização”, realça a responsável. “Complementamos este trabalho com consultoria em gestão de pessoas e formação, porque acreditamos que recrutar é apenas uma parte da solução. O verdadeiro desafio é desenvolver talento, potenciar equipas e criar organizações onde as pessoas queiram permanecer e cresce”, nota ainda a especialista em recursos humanos.