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Mecenato: Alcobaça ganha museu com 800 anos de barro e faiança
O mais recente museu municipal de Alcobaça convida a uma viagem pela identidade cerâmica do concelho, da escultura em terracota de matriz religiosa às manufacturas dos últimos três séculos
Faiança conventual, peças seiscentistas e a senda industrial dos últimos dois séculos compõem o acervo do Museu de Cerâmica de Alcobaça - Colecção Maria do Céu e Luís Pereira de Sampaio, que reabre portas durante o mês de Junho, agora sob tutela do município.
A exposição permanente transforma a visita numa viagem pela identidade material de Alcobaça: da cerâmica conventual de matriz religiosa às manufacturas dos séculos XIX, XX e XXI, com paragem nas peças seiscentistas que marcam a transição para a produção mais profana e quotidiana.
Logo à entrada do espaço, em jeito de introdução, poderão ser admiradas antigas esculturas em terracota atribuídas aos "monges barristas" do Mosteiro de Alcobaça, além de fragmentos adquiridos a um elemento de uma família que habitou na ala Sul do mosteiro local, nas décadas de 40 e 50, do século passado.
A responsabilidade técnica de integrar o acervo na rede museológica local cabe ao museólogo municipal Alberto Guerreiro.
O desafio, explica, passou por criar uma narrativa que atravessa os séculos, começando por fragmentos que recuam quase à Fundação e às esculturas em terracota dos monges cistercienses.
"Faz-se esse contexto mais antigo, de que a cerâmica, em Alcobaça, não começou no século XIX, mas teve um passado ligado aos monges", afirma o técnico.
O núcleo central, contudo, foca-se na "explosão industrial" iniciada em 1875 com a oficina de José dos Reis, ceramista vindo de Coimbra, traçando-se, depois, a linhagem da família da Bernarda, que deu origem a grandes fábricas como a Raul da Bernarda e a Olaria de Alcobaça.
Alberto Guerreiro recorda o período áureo, em que "chegou a haver mais de 100 fábricas" e unidades familiares.
Para lá da galeria de peças artísticas, apresenta-se o pulsar de uma identidade industrial local e artística que moldou gerações.
O percurso museográfico destaca ainda a evolução técnica, da pintura manual até à introdução de métodos como a estampa, o carimbo e o stencil nos anos 60 do século XX.
O museu resulta de uma doação de Jorge Pereira de Sampaio, historiador e antigo director do Mosteiro de Alcobaça, que cedeu ao município um espólio de 2.300 peças, retirado da colecção iniciada pelos seus pais, Maria do Céu e Luís Pereira de Sampaio, em 1953, e que evoluiu, após a morte do pai, para espaço expositivo, ainda sob a alçada da família Pereira de Sampaio.
A colecção é descrita pelo doador como "democrática", alternando peças de elevado valor artístico pintadas à mão com itens decorativos das décadas de 40 a 80, incluindo peças de estilo kitsch que marcaram a produção industrial da época.
Sampaio, cuja formação académica se focou na História da Arte e passou por um mestrado com dissertação sobre a Real Fábrica do Juncal e, mais tarde, pelo doutoramento com tese focada na arte portuguesa do século XVI, explica que era essencial incluir essas peças, fundamentais para a subsistência da população operária local, sendo que algumas são o único testemunho de unidades já desaparecidas.
O espólio inclui exemplares de fábricas que hoje trabalham design moderno, como a Arfai, a Claraval, a Jomazé ou a São Bernardo PP&A, entre outras.
Além das peças e das reservas, Jorge Pereira de Sampaio entregou à gestão autárquica o imóvel, onde também se situava a Galeria Conventual, e o mobiliário de exposição.
O historiador diz que a reabertura do espaço é uma espécie de homenagem aos progenitores, em especial ao pai, Luís Pereira de Sampaio, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento. Sente assim que a oferta a Alcobaça do espólio foi um processo natural. "Nasci com a partilha no sangue", afirma.
Alma da terra
A transição para a gestão da Câmara de Alcobaça marca o início de uma nova era para o espaço, e a vereadora da Cultura, Ana Paula Rodrigues Malojo, sublinha a importância estratégica desta mudança.
"Pretendemos que a cerâmica seja um elemento identitário do concelho."
A meta principal da autarquia é garantir que o museu seja "visitável em permanência", quebrando o ciclo de aberturas pontuais e integrando-o em eventos dinâmicos e exposições que possam circular por outros locais no concelho.
Haverá roteiros guiados e conteúdos bilingues integrados na rede museológica local, para atrair alguns dos milhares de turistas que já se deslocam à cidade para visitar o Mosteiro de Alcobaça.
Para quem desejar adquirir recordações, estará em funcionamento uma loja adjacente ao museu, no espaço da antiga Galeria Conventual, que resulta de uma parceria entre o mecenas Jorge Pereira de Sampaio, a Associação de Defesa e Valorização do Património Cultural da Região de Alcobaça e fábricas locais, possibilitando a aquisição de artigos da produção da região.
"Cedemos a loja para que se possa divulgar a cerâmica de Alcobaça e para que os visitantes possam ter acesso às peças que, hoje, se produzem", diz Jorge Pereira de Sampaio.
E o novo museu já suscita interesse antes mesmo da sua reinauguração. "Já temos visitas marcadas. A cerâmica é muito atractiva e esta cerâmica decorativa tem muita procura", conta Ana Paula Malojo.
Talvez por isso, a visão para o futuro seja já de expansão. Jorge Pereira de Sampaio admite a possibilidade de futuras doações de outros acervos seus, como chitas de Alcobaça e gravuras.
Texto editado a 29/05/2025, para actualizar a descrição do espólio