Sociedade

Morreu o actor Pedro Oliveira, fundador do grupo O Nariz

8 jul 2026 12:14

O também encenador foi um dos principais dinamizadores do festival Acaso

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O actor Pedro Oliveira morreu aos 66 anos, na quarta-feira, dia 8 de Julho, no Hospital de Santo André, em Leiria, onde estava hospitalizado.

O também encenador chegou a Leiria nos anos 80, onde se empregou no Banco de Portugal, vindo de Queluz.

Começou a colaborar com o TELA - Teatro Experimental de Leiria e, em 1995, com Vitória Condeço, fundou o colectivo O Nariz, que viria a realizar a primeira edição do reputado festival Acaso um ano depois.

No percurso do colectivo O Nariz, destaca-se igualmente o festival CriaJazz, o Encontro Internacional de Contadores de Histórias e as sessões Contos ao Pôr-do-Sol, as visitas encenadas no Mosteiro da Batalha e no Castelo de Leiria e algumas grandes produções que envolveram dezenas de actores, como Aljubarrota 1385.

Câmara reage

Recentemente, como encenador, apresentou o monólogo Agripina, A Menor, no Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida, em Espanha.

"O desaparecimento de Pedro Oliveira representa uma perda profunda para a cultura de Leiria. O seu percurso ficará para sempre ligado ao trabalho notável desenvolvido pelo grupo O Nariz. Neste momento de tristeza, apresento, em nome do Município de Leiria, as mais sentidas condolências à sua família, aos amigos e a toda a equipa d’O Nariz", afirma ao JORNAL DE LEIRIA Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria.

O município emitiu uma nota de pesar.

Incontornável na cultura de Leiria

O director artístico de O Nariz, com sede em Leiria, recordou, em entrevista ao JORNAL DE LEIRIA, no ano passado, que a cultura na cidade era uma "desgraça total", quando chegou.

"O que é que havia? O FAOJ [Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis], que resumia-se ao Toni e pouco mais, o Teatro Experimental de Leiria, que era uma companhia relativamente pequena, o Teatro da Columbina, o Grupo de Teatro do Orfeão, já em desgaste, a desfalecer, depois havia uma associação, o Circularte. Vim de Lisboa habituado a um movimento enorme de espectáculos, cheguei aqui, havia o Teatro José Lúcio da Silva, que era um cinema. Peças de teatro, raramente passavam lá. Concertos, esquece. O primeiro concerto que vi em Leiria foi uma trabalheira para organizar: Trovante", contou.

Leiria também era "completamente" diferente do que é hoje. "Um marasmo. Da minha idade, entre os 20 e os 30 anos, eram meia dúzia de pessoas. Toda a gente ia estudar para fora, ia tudo para Lisboa, para Coimbra. Essa geração, praticamente não havia ninguém que mexesse uma palha. Equipamentos não havia, as estruturas eram apoiadas mal e porcamente."

Os anos do Orfeão Velho

Durante anos, a companhia trabalhou no mítico Orfeão Velho, de onde foram obrigados a sair. "O que aconteceu, aconteceu. E depois do que aconteceu, mais nada aconteceu. O edifício lá está. Qual era a pressa de acabar com aquele pólo cultural?"

Leia aqui a entrevista na íntegra: “Não há nada que substitua a força de um actor ao vivo”


Ao longo de décadas, enfrentou obstáculos e orçamentos apertados, mas lutou sempre pelo público, pela cultura e por abrir horizontes da modorrenta Leiria.

Com a voz marcada pela tristeza, o dramaturgo Luís Mourão recorda no amigo e companheiro de palcos uma figura ímpar na cena cultural de Leiria.

"Quando chegou, encontrou em Leiria uma cidade muito frágil do ponto de vista cultural", conta. "O Pedro era O Nariz e O Nariz era o Pedro. Abriu espaços e horizontes e trouxe projectos, novas ideias e gente nova."

Uma dessas pessoas foi Dora Conde, directora e encenadora do Teatro Apollo, de Ourém, que lembra "um bom amigo e um grande senhor do teatro".

"Pessoalmente, abriu-me as portas. Somos família de teatro. Não há palavras para esta perda."

O fundador do Te-Ato, João Lázaro, recorda um homem que estimava imenso, "um profissional plenamente comprometido com os palcos", que sempre procurou produtos "com mais exigência e qualidade para tornar os espectadores, também eles, mais exigentes".

Lamenta, acima de tudo, uma coisa. "Na última vez que estivemos juntos, falámos, mais uma vez, em fazermos algo, só nós dois, no palco. Tenho muita pena que não tenha acontecido."

Já o encenador e cineasta Andrzej Kowalski sublinha a enorme coragem de, "contra tudo e todos", ter lutado para manter a vida teatral, O Nariz e o Acaso a singrar em mar adverso, "praticamente sem apoios nem subsídios". "É a perda de um amigo e companheiro", afirma.

Joaquim Ruivo, antigo director do Mosteiro da Batalha, elogia a capacidade de escutar e compreender outros pontos de vista. "Além de ser uma pessoa muito correcta e cordial, era um excelente profissional."

Texto editado a 9 de Julho de 2026, às 9 horas, para acolher as declarações de amigos e agentes culturais sobre a figura de Pedro Oliveira