Sociedade

Novidades na reciclagem surgem para incentivar a separação de resíduos

7 jul 2026 14:00

A reciclagem já não se resume aos ecopontos verde, amarelo e azul. Numa altura em que produção de lixo na região atinge níveis históricos, enumeramos as principais mudanças e as boas práticas a manter

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Sistema Volta entrou em vigor a 10 de Abril
Ricardo Graça
Inês Gonçalves Mendes

O mundo da reciclagem já vai além dos ecopontos verde, amarelo e azul. A separação de resíduos tem aumentado o seu espectro nos últimos anos e são muitas as novidades que podem, por vezes, provocar dúvidas sobre onde é que determinado produto deve ser depositado.

A mais recente é o sistema Volta, que entrou em vigor a 10 de Abril em Portugal, mas que já está implementado em 19 países europeus. Responde à legislação europeia e às metas ambiciosas de alcançar uma taxa de recolha selectiva de 90% até 2029, com o propósito de transformar o material reciclado em novas embalagens.

A gestão desde sistema foi atribuída à SDR Portugal [Sistema de Depósito e Reembolso], associação sem fins lucrativos, licenciada pela Agência Portuguesa do Ambiente e pela Direcção-Geral de Economia, que reúne representantes da indústria de bebidas e do retalho alimentar, e que refere que os primeiros resultados, desde a implementação deste método, têm sido positivos.

“Os primeiros resultados apontam para uma adesão positiva dos consumidores. Apesar de se tratar de um novo hábito, os cidadãos têm vindo a integrar progressivamente a devolução de embalagens no seu dia-a-dia”, explica Lia Oliveira, directora de marketing e comunicação da SDR Portugal.

A partir de Abril, começaram a circular embalagens com o símbolo Volta, com um acréscimo de 10 cêntimos no seu valor, que funciona como “incentivo” para o consumidor devolver a embalagem utilizada nos pontos instalados para o efeito e já disponíveis, nomeadamente, nos supermercados.

Segundo a SDR, a Volta permite “aumentar significativamente a recolha de embalagens de bebidas e garantir que os materiais recuperados apresentam a qualidade necessária para serem reciclados e reincorporados em novas embalagens”.

“Ao assegurar que uma garrafa pode voltar a ser uma garrafa e uma lata pode voltar a ser uma lata, a Volta ajuda a reduzir o consumo de matérias-primas virgens, a diminuir a pegada ambiental associada à produção de embalagens e a reforçar os princípios da economia circular”, defende a instituição, ao lembrar que a Volta tem resultados comprovados nos países onde já está implementada.

Para acontecer o mesmo em Portugal, “é fundamental o envolvimento e participação de todos”. Segundo a SDR Portugal, entre os dias 10 de Abril e 10 de Junho, foram devolvidas mais de 10 milhões de embalagens, número que cresceu “exponencialmente”, superando já os 26 milhões.

Contentor castanho: adesão abaixo do esperado

Uma das mais recentes novidades na reciclagem é, também, o contentor castanho, destinado à recolha de biorresíduos, como restos alimentares de cozinhas e habitações ou resíduos biodegradáveis de jardins e parques.

A lei portuguesa determina a obrigatoriedade da recolha selectiva desta fracção de resíduos e, no caso do concelho de Leiria, a sua implementação teve início em Abril de 2024, embora a autarquia tenha iniciado a recolha destes resíduos em 2022, com o projecto RecicLar.

Apesar da distribuição alargada destes contentores pelo concelho, o vereador com o pelouro do Ambiente, Luís Lopes, afirma que “a adesão tem ficado aquém do inicialmente esperado, verificando-se ainda níveis reduzidos de participação na vertente doméstica do projecto”.

“Acresce que a presença de resíduos indevidos nos contentores de biorresíduos continua a ser significativa, obrigando o Município a desenvolver acções adicionais de sensibilização, acompanhamento e monitorização para melhorar a qualidade da separação”, adianta.

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Ainda assim, o autarca reconhece que “o projecto tem contribuído para aumentar a consciencialização da população para a importância da correcta separação dos resíduos e para o papel que cada cidadão desempenha na redução da quantidade de resíduos enviados para eliminação, promovendo comportamentos ambientalmente mais responsáveis”.

Todas as sobras de comida – como restos de legumes, cascas de fruta, carne, peixe, ovos, restos de pão e bolos, borras de café, saquetas de chá, papel de cozinha e guardanapos de papel -, uma vez depositadas correctamente nestes contentores castanhos, podem ser transformadas em adubo natural, através de um tratamento mecânico e biológico, que permite aplicar este produto em jardins, pomares, vinhas e olivais.

Além disso, é reduzido o custo do tratamento, que tem impacto nas tarifas anuais dos resíduos urbanos. O contentor castanho doméstico pode ser solicitado junto das autarquias, para que possa começar a separação dos bioresíduos em casa e, desta forma, contribuir para a redução da produção de lixo, acima dos níveis esperados para 2026.

Produção de lixo aumenta

Segundo os dados disponíveis no portal Portada, em 2024, foram recolhidas no distrito cerca de 265.192 toneladas de resíduos urbanos, o número mais elevado desde que há registo de dados por concelho (2002). Têm sido mais recorrentes as queixas relativas à acumulação de lixo junto aos contentores, agravada com a tempestade Kristin e o aumento da população, perante um sistema de recolha sem capacidade de resposta para este crescimento.

A Valorlis reconhece que, em consequência do mau-tempo na região, “assistimos a um agravamento de deposição de resíduos indevidos dentro e fora dos ecopontos, nomeadamente electrodomésticos, monos, restos de obras, estores, tubos, mangueiras, estendais, resíduos perigosos, entre outros, o que, para além de gerar condições de insalubridade na envolvente dos contentores, cria dificuldades (encravamentos/entupimentos) no processo de triagem”.

Contudo, a empresa que realiza a valorização e tratamento de resíduos sólidos na região de Leiria tem observado uma “mudança gradual positiva nos hábitos de separação da população”.

“A população está a reciclar mais, mas, ainda há um caminho longo a percorrer para que a separação seja feita sempre e em todo o lado onde estejamos: em casa, no trabalho ou em lazer”, defende a Valorlis.

Valorlis aproxima reciclagem da população

Dentro deste âmbito, a Valorlis tem prevista a colocação de 267 contentores de 1.100 litros em “locais estratégicos” nos municípios da Marinha Grande e Leiria.

Com a implementação de um novo sistema de recolha selectiva de proximidade, que começou em meados de Junho, a Valorlis procura “facilitar a separação de resíduos recicláveis e a sua colocação nos respectivos equipamentos, tornando o processo mais cómodo e acessível para os cidadãos”.

Assim, estão a ser instaladas eco-ilhas, cada uma com os contentores amarelo, azul e verde, nas localidades de Picassinos, Comeira (Marinha Grande), Mouratos e Casal do Ralha (Leiria), numa primeira fase, para servir os 3.900 habitantes destas zonas.

A partir de 2027, a empresaprevê continuar a alargar a disponibilização de eco-ilhas a outras áreas do território.

“A instalação dos novos contentores será acompanhada por acções de sensibilização porta-a-porta, promovidas por equipas da Valorlis, durante os próximos fins-de-semana, com o objectivo de esclarecer os munícipes sobre o funcionamento dos novos equipamentos e incentivar à correcta separação de resíduos recicláveis.

A Valorlis apela, por isso, à participação activa dos cidadãos e ao envolvimento de todos, porque cada gesto faz a diferença”, pode ler-se, em comunicado de imprensa.

Para a administradora-executiva da Valorlis, Marta Guerreiro, a implementação deste sistema “pretende oferecer uma solução mais cómoda, flexível e adaptada ao quotidiano da população”.

“Queremos que a separação se resíduos seja um gesto simples e integrado nas rotinas diárias”, acrescenta.

Boas práticas: O que devemos ou não colocar nos ecopontos
Com o aumento da produção de lixo, importa rever quais são os materiais que devem e não devem ser colocados nos ecopontos verde, amarelo e azul, uma vez que o depósito correcto dos resíduos garante a segurança necessária das equipas e a valorização de cada material. Segundo a Valorlis, os principais erros são verificados no ecoponto amarelo, que permite colocar uma maior diversidade de materiais. Podem apenas ser depositadas embalagens domésticas de plástico, metal/alumínio, pacotes de bebidas (leite ou sumo) e esferovite. Não é necessário lavar as embalagens, basta escorrer, porém, é importante espalmar os resíduos, principalmente os de maior dimensão. No ecoponto azul, devem ser colocadas embalagens de papel e cartão limpos, sem gorduras ou outros contaminantes, o que “ainda acontece com alguma frequência”, menciona a Valorlis, referindo que “são ainda colocados indevidamente sacos com restos de comida e sacos de cimento”.
No contentor verde, continuam a ser erradamente colocadas cerâmicas, copos de vidro ou janelas, contaminantes para o processo de reciclagem. Este ecoponto apenas deve receber garrafas, fracos e boiões de vidro. Quando há outros materiais que não têm lugar nestes ecopontos, principalmente monos, deve ser comunicado aos serviços municipais do ambiente o pedido de recolha de resíduos, para manter o espaço público limpo.