Viver
O filólogo do abismo: Fernando Ribeiro e a finitude dos Moonspell
Entre a quietude de Alcobaça e os palcos de meio mundo, o vocalista dos Moonspell fala do regresso da banda, “fruto de cinco anos de busca criativa”, com Far From God. Um disco que é um diagnóstico nietzschiano sobre o nosso tempo
Há uma ironia geográfica na existência de Fernando Ribeiro. O homem que passou as últimas três décadas a invocar o romantismo negro, a cantar as trevas (não estando propriamente lá) e a percorrer diversos continentes à frente dos Moonspell, escolheu os arredores de Alcobaça para calibrar a sua visão do abismo.
Ele os Moonspell estão ligados a Leiria e à região por laços de trabalho, amizade, família e residência.
Longe da “macrocefalia” de Lisboa que ele próprio observa: “agora é incrível porque Lisboa, que dantes era o poço de todas as virtudes, agora é o poço de todos os defeitos, agora já ninguém gosta de Lisboa, agora é tudo city quitter e fomos para o campo - eu inclusivamente - mas acho que é uma coisa muito mais global e que tem muito mais a ver quando tu vais desistindo de estar numa determinada velocidade”. É nesta espécie de refúgio criativo do centro do país que o frontman encontra o espaço necessário para a tal “área cinzenta” onde a filosofia e a música se tocam.
Numa semana de rondas de imprensa intensivas, recebe o JORNAL DE LEIRIA (de que é cronista) com a tranquilidade de quem não precisa de provar nada a ninguém. Ribeiro é um sobrevivente lúcido de uma indústria que, confessa, “tritura” as bandas no ciclo sádico de dois anos para gravar e dois anos para fazer a tournée. Foi preciso esperar vários anos para que os Moonspell editassem Far From God. O resultado não é apenas um álbum; é um ensaio sobre a distância que nos separa de nós próprios.
A filologia do caos: um Nietzsche para 2026
Esqueçam as leituras superficiais de sala de espera sobre o “Deus está morto” de Nietzsche. Far From God também não é um álbum religioso e Fernando Ribeiro corrige a rota para a verdadeira essência do filósofo de Röcken. “O Nietzsche, na sua origem, é um filólogo”, explica, com o rigor de quem leu para além do Zarathustra, sendo ele um antigo estudante de filosofia. “Ele parece que pega numa fita métrica e mede a distância entre o potencial civilizacional dos gregos e o potencial do tempo dele. Se subtrairmos isto para 2026, a distância é imensa”.
Ribeiro explica que Far From God não é sobre uma crise de fé cristã, é sim a metáfora incontornável da distância da humanidade em relação ao seu próprio potencial: a mentira como modo de vida, por exemplo. Para Ribeiro, o “afastamento de Deus” é o afastamento da lucidez. Numa era de evangelismos políticos, teocracias que nada têm a ver com a paz e uma polarização digital onde “os homens usam a religião – ou a ideologia – para o poder”, os Moonspell regressam a uma simplicidade que não é romântica, mas sim urgente. Não há aqui a vontade de experimentar pelo experimentalismo dos discos 1755 ou do industrial de The Butterfly Effect. Há, sim, a necessidade de olhar o abismo de frente, sem as lentes confortáveis da ilusão.
O Dorian Gray do metal gótico e a finitude
Aos 51 anos Fernando Ribeiro partilha a mesma geração que tantos outros e com isso as mesmas inquietações sobre o tempo. No heavy metal, o envelhecimento é um tabu. A cena exige juventude, atitude e uma imortalidade de plástico. “A música é muito mais feroz neste aspeto”, atira. “É como o Retrato de Dorian Gray, só que com atualizações em cada fotografia que te tiram.” Ribeiro refere Klaus Meine dos Scorpions, hoje com 76 anos, a arrastar a voz destruída por palcos de estádio. “Eu acho que é super saudável pensarmos na finitude”, diz, citando agora Kant e o seu “foco imaginário” – aquele ponto no horizonte que sabemos que nunca alcançaremos, mas que nos serve para orientar a caminhada. “Saber onde está a baliza, e onde está a saída, é fundamental. Se calhar, o futuro dos Moonspell é menos metálico e mais Nick Cave. Mais auditórios, mais elegância, mais consciência da idade.”
A falência da Europa e a política do quotidiano
Se a filosofia dita o tom existencial de Far From God, a política dita o seu desalento. Ribeiro é um viajante incansável, e a sua visão da Europa é a de quem viu as engrenagens burocráticas por dentro. “A Europa é um projeto do caraças, nasce com Kant, com o federalismo”, recorda. “Mas perdeu a sua liderança. A Alemanha está em crise tecnológica, a França em crise cultural. E a burocracia é asfixiante.”
Relata o absurdo de tocar na Alemanha e ver uma percentagem significativa do seu cachet retido na fonte por um Estado que o trata como um estrangeiro a quem tem de inventar despesas. “A Europa não estava preparada para a crise migratória e entrou em pânico. E o pânico alimenta a extrema-direita.” Para Ribeiro, há pouca política verdadeira no disco, mas há muita filosofia política: a constatação de que a falta de debate e a desistência cívica são os verdadeiros males da nossa sociedade.
Alcobaça, a periferia que observa o centro
Como é que viver fora da bolha de Lisboa altera a escrita de um homem que observa o mundo a partir das estradas? “Geograficamente, não altera o meu método, mas altera a minha velocidade”, responde. “Lisboa é hoje um símbolo para nómadas digitais e turistas. A vida das cidades é profundamente desinspiradora; as pessoas estão focadas na sua sobrevivência, parece aqueles tempos pós-guerra.”
Estar em Alcobaça, diz, permite-lhe manter uma “diferente observação de Portugal”. Longe do ruído, a escrita mantém-se um processo interior, mas o olhar sociológico afia-se. Ele vê o país como cantava António Variações: “Estamos onde não queremos estar, somos quem não queremos ser”, refere. É uma inconstância que, por estes dias, se vê no futebol: “Empatámos com o Congo e somos miseráveis. É esta velocidade emocional que nos acompanha desde o berço.”
O Antídoto para a toxicidade
No meio de tanta lucidez sobre o declínio civilizacional, há espaço para a ternura? Fernando conta a história de um fã polaco que, nas redes sociais, fez uma campanha feroz acusando o grupo de se ter vendido ao pop. Quando se conheceram no backstage, o fã, que teve a oportunidade de assistir à explicação dos Moonspell sobre as suas escolhas estéticas pediu desculpa e agradeceu pela banda sonora dos últimos 30 anos da sua vida.
“O amor vence tudo, e a atenção vence a toxicidade”, conclui. “As pessoas atiram primeiro e perguntam depois. O segredo não é bloquear, é dar contexto. É lembrar que do outro lado há um ser humano que também comete erros de interpretação.”
Enquanto a conversa termina e a tarde cai, dá para perceber que Far From God não é o álbum de uma banda em crise de fé. É o álbum de um homem que, tendo já vivido uma “vida do caraças”, decidiu que a única forma de continuar a fazer arte com dignidade é aceitar o fim. Os Moonspell não querem ser eternos; querem ser relevantes. E nesta aceitação de finitude, Fernando Ribeiro encontra, finalmente, a sua mais absoluta liberdade.
Far From God, dos Moonspell, é editado esta sexta-feira, 3 de Julho.