Sociedade
Região aposta na produção de gás verde e energia a partir de efluentes e lixo
De resíduo a matéria-prima para a produção de electricidade e de biometano (gás renovável) é o paradigma dos vários projectos existentes em Leiria, uns já a funcionar e outros em fase de implementação
As primeiras experiências de Uziel Carvalho para a produção de biogás a partir do tratamento de excrementos das vacas remontam ao início dos anos 80, quando instalou o primeiro biodigestor na sua exploração agrícola, localizada em Aroeira, Coimbrão. Era “demasiado pequeno” e não funcionou como pretendia. Construiu um segundo maior e depois outro, até chegar ao sistema actual, com dois biodigestores que, a partir do biogás resultante do tratamento de efluentes pecuários, produz energia eléctrica que alimenta a vacaria e a empresa que tem ao lado, a Germiplanta.
Não é auto-suficiente, mas consegue uma poupança mensal em electricidade na ordem dos “4.500 a 5.000 mil euros”. A esse valor é, no entanto, necessário subtrair os custos com a manutenção e a substituição de equipamento, ressalva o empresário, que admite ter investido ao longo dos anos “mais de um milhão de euros”.
“Para uma pequena exploração como a minha, que tem cerca de 550 animais, dos quais, 250 adultos em ordenha, é muito”, aponta, sublinhando que, mais do que a produção de energia, a principal motivação para avançar com este projecto foi a procura de uma solução para o tratamento dos efluentes dos animais.
“Só uma pequena parte da matéria orgânica, entre 5 a 7%, é que precisa de ser tratada. É aquela que fica diluída no efluente líquido. Para chegar aos 100%, seria necessário um investimento astronómico”, partilha Uziel Carvalho, frisando que, além da produção de biogás, o processo de tratamento permite obter um produto que é usado na cama dos animais, poupando entre 1.300 a 1.500 euros por semana.
Este é um dos projectos de produção de gás verde a partir de resíduos existentes na região. No aterro sanitário da Valorlis, há mais de 20 anos que o biogás resultante da decomposição do lixo depositado em aterro e do funcionamento da central de tratamento mecânico e biológico é utilizado na produção de energia eléctrica.
O mesmo acontece nas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) exploradas pela Águas do Centro Litoral (AdCL), nomeadamente, no Coimbrão e nas Olhavas, ambas em Leiria. A empresa explica que produção de biogás a partir do tratamento das águas residuais faz parte de um plano que prevê um investimento superior a 8,6 milhões de euros, com o objectivo de se tornar “energicamente auto-suficiente até 2030, através da produção de energia 100% renovável”, nomeadamente a partir do biogás gerado nas ETARs e da instalação de centrais fotovoltaicas nas várias infra-estruturas.
Há, no entanto, caminho a fazer. No ano passado, a AdCL registou um consumo total de energia eléctrica de 75 Gwh (Gigawatt- -hora), com a produção própria, maioritariamente proveniente da valorização do biogás em centrais de cogeração, a quedar-se pelos 5 Gwh. “Estes valores traduzem uma auto-suficiências energética de cerca de 7%, evidenciando o potencial de crescimento neste domínio”, aponta a empresa.
Energia produzida por lixo dá para 2.100 famílias
No caso da Valorlis, a produção de biogás foi iniciada em 2004 e, desde então, já produziu 183,7 GWh, energia suficiente para “abastecer 2.100 famílias ao longo dos últimos 22 anos”, que poupou 53.284 toneladas de petróleo e evitou a emissão de 67.983 toneladas de CO2, estima a empresa, que vai agora canalizar o biogás para a produção de biometano (gás verde que resulta da purificação do biogás).
“Em Portugal, o upgrade do biogás para biometano apresenta várias vantagens face à produção de electricidade, sobretudo porque permite substituir gás natural fóssil importado, aproveitar a infra-estrutura existente da rede de gás e descarbonizar sectores difíceis de electrificar, como a indústria e o transporte pesado”, alega a Valorlis, salientando ainda que “o biometano oferece maior eficiência energética por MWh [mega watt-hora]”. Isto porque “evita as perdas associadas à conversão em electricidade e pode ser utilizado directamente para calor, mobilidade ou processos industriais”.
Segundo a Varlorlis, a unidade de biometano envolverá um investimento na ordem dos 3,6 milhões de euros, a realizar pela Mota-Engil Energia, do grupo Mota-Engil ao qual pertence a EGF - Empresa Geral do Fomento, que detém 51% do capital social da empresa (os restantes 49% são detidos pelos municípios de Batalha, Leiria, Marinha Grande, Ourém, Pombal e Porto de Mós).
Com capacidade para cerca de 15 GWh por ano, a produção de biometano da Valorlis deverá arrancar ainda este ano. A empresa admite, no entanto, que face aos danos provocados nas suas instalações pela tempestade Kristin poderão “existir ajustamentos ao calendário de implementação”. “Este projecto, com contrato de fornecimento de biogás de longo prazo, proporciona maior estabilidade e previsibilidade de receitas, reduzindo a exposição à volatilidade dos preços da energia e respectivo impacto negativo na tarifa municipal de resíduos”, acrescenta a Valorlis.
Projectos a aguardar licenciamento
Em fase de licenciamento estão outros dois projectos para a produção de biomenato no concelho de Leiria, um promovido pela Genia Bioenergy, em Amor, e outro pela Heygaz (ex-Biojoule Energy), no Coimbrão -, ambos a partir de efluentes suinícolas e de outros produtos agro-pecuários. Carlos Valente, director da Genia Bioenergy Portugal, adianta que a empresa está na fase final da obtenção de documentação e a expectativa é que, dentro de algumas semanas, o processo possa ser submetido na plataforma para a obtenção da Declaração de Impacto Ambiental (DIA).
“As entidades públicas terão depois 90 dias para se pronunciarem”, frisa o responsável, avançando que o processo de licenciamento das obras já deu entrada na Câmara, mas “não pode haver decisão até à emissão da DIA”. “Queremos iniciar a construção ainda este ano”, diz o responsável, que admite que a execução demorará “até 24 meses”. Com uma capacidade de produção de 107 GwH/ano, o investimento rondará os 48 milhões de euros, valor que, poderá “subir mais um pouco”, assume Carlos Valente.
Já o projecto da Heygaz, a instalar no Coimbrão, encontra-se “em fase de licenciamento ambiental”. A empresa espera que a licença para o início das obras possa ser obtida “em meados de 2027”, com os trabalhos a demorarem “até 18 meses”. Tanto no caso deste projecto como no da Genia Bioenergy, os prazos agora estimados configuram um atraso em relação ao previsto inicialmente, com indefinições e falta de regulamentação a dificultarem o arranque das obras.
“Os principais desafios têm estado associados ao enquadramento regulatório em consolidação para o sector do biometano em Portugal e aos tempos administrativos que requerem estes processos de licenciamento”, assume Patrícia Silvério, business development Portugal da Heygaz, cujo investimento rondará os 20 milhões de euros.
O Governo apresentou, recentemente, um conjunto de medidas para impulsionar a produção nacional de biometano que abrange legislação, incentivos à injecção na rede de gás, financiamento directo, ferramentas digitais de apoio ao investimento e um processo de licenciamento simplificado em quatro etapas.
O biogás e o biometanano são gases renováveis produzidos a partir da decomposição de resíduos urbanos, lamas de Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), de efluentes pecuários (a principal fonte de matéria-prima) e resíduos agro-industriais e florestais. Durante este processo, “feito num ambiente controlado sem oxigénio, os microrganismos vão decompondo estes resíduos” e obtém-se o biogás, que pode ser usado para a produção de energia eléctrica, de biometano e de calor e valor, utilizado em caldeiras e processos térmicos industriais, explica o site biometano.lneg.pt. Já o biometano resulta da purificação do biogás. “Tem uma composição idêntica ao gás natural e é por isso que pode ser injectado na rede de abastecimento existente sem levantar grandes problemas”, lê-se naquele site. Pode ser usado para o fornecimento de calor e energia para os edifícios e indústrias e para a produção de combustível renovável para o sector dos transportes.