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Teatro Amador de Pombal: O Fio, uma montra partida e a mulher da limpeza na boda de ouro de palco

9 jul 2026 10:00

TAP celebra o cinquentenário até domingo, com os antigos actores de regresso ao palco, música dos Danças Ocultas no Teatro-Cine e convívio à beira do Arunca

Peça Os três Fósforos, de 1984
Peça Os três Fósforos, de 1984
Peça João Aldrabão, de 1977
Peça João Aldrabão, de 1977
Joaquim Eusébio, Catarina Almeida e Humberto Pinto
Joaquim Eusébio, Catarina Almeida e Humberto Pinto
Forografia: JSD
Jacinto Silva Duro

Há colectivos culturais que nascem com estatutos, plano estratégico, orçamentos (ou a sua previsão) e, por vezes uma sessão solene de assinaturas e cumprimentos às entidades. O Teatro Amador de Pombal (TAP) nasceu com uma montra partida. Sim. Com um vidro partido, que foi preciso pagar até ao último centavo.

O grupo celebra o cinquentenário, até 12 de Julho, no Teatro-Cine e noutros espaços da cidade, com a estreia de uma peça, um regresso histórico dos antigos e um convívio à beira do Arunca.

Em Pombal e no resto do País, o Verão já não corria quente quando, a 13 de Julho de 1976, um grupo de alunos do ciclo preparatório e do ensino secundário da então Escola Comercial e Industrial de Pombal e Joaquim Eusébio, professor de Português e História, decidiram dar continuidade ao núcleo de teatro que tinham formado, uma vez que vários elementos iriam concluir os estudos em breve.

A primeira sede foi num edifício que já não existe, localizado onde se encontra hoje a esquadra da PSP de Pombal, seguindo-se uma loja de modas situada precisamente por baixo da casa de Joaquim Eusébio, na Avenida Heróis do Ultramar.

O senhorio do professor disponibilizou o espaço sem cobrar qualquer renda e a loja passou a local de ensaios, oficina para construir fantoches e cenários, armazém e sala para espectáculos para a infância.

E foi também aí que se deu o incidente do vidro. Ao segundo dia na loja, alguém decidiu que aquele ajuntamento de alunos com um professor só podia andar metido em "coisas comunistas e o vidro pagou as favas".

Joaquim Eusébio recorda esses primeiros tempos e as récitas nos palcos improvisados das aldeias ao redor da então vila de Pombal, para pagar a vidraça, sem uma aura de nostalgia dourada.

A hierarquia interna, explica, sempre foi de uma horizontalidade radical. "Eu mantive-me director, encenador, actor, e até mulher da limpeza! Fazia o que fosse preciso", recorda bem-humorado.

É uma frase que cai como uma luva no TAP e que resume a filosofia deste grupo, onde o protagonista da noite é o mesmo que, após o cair do pano, carrega às costas os cenários para a carrinha e passa o palco a esfregona.

Joaquim Eusébio, Catarina Almeida, antigos presidentes da direcção, e Humberto Pinto, que ocupa o cargo neste momento recordam que até as três letras da sigla têm cadastro e não podem ser usadas oficialmente.

O "roubo oficioso" da marca consumou-se, num artigo jornalístico do pombalense José Manuel Carraca, que, ao escrever sobre o sucesso da digressão, intitulou a notícia como "Digressão do TAP à Suíça".

O grupo primeiro estranhou e depois entranhou as três letrinhas, mas manteve a designação de Teatro Amador de Pombal, sublinhando o "amador", porque, como Joaquim Eusébio sublinha: "amador quer dizer que se ama o que se faz".

Sete troianas em palco e um mundo a desmoronar

Um dos pratos fortes das comemorações estreou no passado sábado, dia 4, no Teatro-Cine, reUnião, com encenação de Sara de Castro, coloca sete mulheres em cena num simulacro de ensaio da tragédia As Troianas, de Eurípides, cruzando a guerra, a perda e as ruínas do clássico com reflexões contemporâneas sobre o que é ser mulher e criadora no teatro e sobre o próprio mundo interno do grupo.

O TAP pretende levar reUnião a outras salas, tendo já previstas várias apresentações, entre elas, a presença no Festival de Teatro de Idanha-a-Nova.

A peça abre a porta para a discussão sobre a renovação dos elementos do grupo, e essa, foi sempre uma especialidade da casa.

Houve períodos em que os elementos, ao chegarem aos 20 anos, já se consideravam "velhos" para permanecer numa trupe de teatro, já que a vida se encarrega de forjar novas prioridades, obrigando o TAP a uma transfusão constante de sangue novo.

Mas foi este prodígio de "acarretar água com uma cesta", como se diz para os lados de Pombal, que resultou, cinco décadas depois, no espírito de partilha democrática que, até agora, se mantém intacto.

É por isto que Humberto Pinto, 47 anos, menos três do que o TAP, a quem cabe agora a direcção, admite ter entrado para o grupo pela via mais simples de todas.

"Eu estava sempre lá, na plateia, a ver as actuações, até que deixou de fazer sentido ficar do lado de fora."

O Fio que esperou décadas pelo palco

O programa dos próximos dias guarda uma das recorrentes piadas internas do último meio século. Hoje, quinta-feira, dia 9, os antigos elementos do TAP regressam ao palco para uma leitura encenada de O Fio, de Prista Monteiro, dirigida por Miguel Sopas.

A escolha não é inocente. Significa o fechar de um capítulo.

Joaquim Eusébio sugeriu a peça várias vezes, como a próxima peça a encenar ao longo de décadas, e a assembleia do grupo, fiel à sua democracia interna, chumbou-a sempre.

Foi preciso o fundador esperar 50 anos, para que os veteranos lhe pegassem e o texto fosse finalmente aprovado.

"Sempre que nos reunimos para pensar no texto a seguir, há sempre alguém que continua a dizer: 'vamos lá fazer O Fio'. Rimo-nos todos e nunca se faz", conta, entre riso, Humberto Pinto.

Amanhã, sexta-feira, dia 10, o Teatro-Cine recebe o concerto de Danças Ocultas, grupo escolhido pela afinidade da sua música com o universo teatral, com entrada a cinco euros.

O encerramento, no sábado, dia 11, muda de cenário para o Parque do Açude, junto ao rio Arunca, com música tradicional portuguesa pelos Roncos do Diabo, marionetas, circo e fios por Rui Sousa e Hélder Silva, e Ivónio que acompanhará o pôr-do-sol.

No domingo, em registo mais reservado, realiza-se o reencontro de gerações, que juntará dezenas de actuais e antigos elementos, alguns dos quais viajam de Cabo Verde e do Brasil expressamente para a data, prova de que a família TAP já tem fuso horário alargado.

As comemorações contam com o apoio financeiro do município, mas o essencial continua a fazer-se como em 1976, com voluntários, decisões tomadas em conjunto e a certeza, de que nem uma montra partida trava quem ama aquilo que faz.