Opinião

A propósito…

7 nov 2019 12:20
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José Amado da Silva, professor universitário

Como vês, parece que as eleições passaram a gozar da propriedade comutativa.

Meu Caro Zé,

Olha! Estou tramado! Quando soou o alerta para te escrever a habitual carta, já tinha, a tempo, pensava eu, escolhido o tema e a sua estrutura. O tema foi-me suscitado pelos diversos entraves à democracia, em especial na limitação dos direitos dos eleitores e da desconformidade com a responsabilidade dos eleitos que, muitas vezes, o não são verdadeiramente, pois é o partido que “os põe lá”, como é o nosso caso, em que a relação eleitor-eleito só existe para a Presidência da República (virão daí os afetos?).

Na base disso estava também a lembrança de, há uns anos (agora a “trapalhada” é maior), nas potenciais “eleições” para governador de Hong-Kong, os habitantes queriam, ao menos, eleger três pessoas, de entre as quais o Partido Comunista Chinês escolheria o governador. Só que a opção do partido era a de indicar três pessoas de entre as quais os habitantes escolheriam uma.

Como vês, parece que as eleições passaram a gozar da propriedade comutativa.

E foi a propósito destes “truques” que, ao querer invocar a “história” da “Assembleia dos Quatro”, que nos idos anos 60 uns “malandros” (eu era um deles), em Leiria, inventaram para gozar a Constituição de 1933, mostrando que todos os membros do grupo, em princípio, podiam ser eleitos para a direção mas, no fundo, eram os “quatro” que sempre escolhiam, fui alertado para que já tinha escrito sobre isso.

E não é que tinha mesmo?

No dia 13 de janeiro de 2005 (!), lá estava no nosso jornal, em título, O regresso da Assembleia dos Quatro, lembras-te?

E lendo-o, confesso que, mutatis mutandis, pouco tenho a acrescentar, pelo que remeto para a sua leitura que me parece muito atual. Quando me apercebi disso, achei que tinha ficado sem assunto, mas como ele é recorrente, lá me consegui “safar”, creio eu.

Só que, entretanto, apareceu a notícia de que a nova ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública ia estabelecer prémios (ou incentivos?) para lutar contra o absentismo dos funcionários públicos. Mas se o absentista deixa de o ser por causa disso é porque, afinal, podia ter ido trabalhar. Se não foi, então merece é castigo (até porque já estava pago.

Não estou a dizer “bem pago”!). Ainda por cima, pagar ao putativo abstencionista significa prejudicar aqueles que, com esforço e diligência, se apresentam ao trabalho, mesmo em dificuldades. Por detrás de tudo isto tem de haver um esquema de corrupção pelo qual ninguém parece ser responsável.

Numa empresa privada sucederia isto, ou o nosso dinheiro, que é de todos, pode premiar os “aldrabões”?

Reconheço que os incentivos para a Função Pública não serão os melhores. Mas estes…?

Até sempre,

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990