Editorial

Anda comigo ver os supercarros

7 mai 2026 07:10

A pressão sobre a mobilidade de segunda a sexta-feira é uma consequência do crescimento com que Leiria tem de lidar. Entregar o centro a eventos sem cuidar da consequência para moradores e comerciantes é uma escolha

Há gerações inteiras com boas memórias da televisão de dois canais e das corridas de F1 na RTP, incluindo o circuito nas ruas de Monte Carlo, incomparável. Fumava-se dentro de casa e nos cafés, o lixo ia todo para o mesmo saco e em Leiria, nas palavras de um amigo, “os Mercedes tinham prioridade nos cruzamentos”.

Hoje temos acesso a quase 200 canais, os pilotos correm no cabo, Monte Carlo continua no calendário, mas até as provas de F1 poluem muito menos.

As cidades têm aproximadamente 10 mil anos e em países como Portugal actualmente a maior fatia da população vive nas zonas urbanas. O centro de Leiria é relativamente pequeno. Entre a Praça Rodrigues Lobo e a Rotunda de Santo André que dá acesso à auto-estrada a distância é inferior a dois quilómetros, uma caminhada de 20 minutos. No sentido oposto, a Rotunda Melvin Jones, a caminho da Marinha Grande, fica ainda mais perto.

De carro, em condições normais e para a maioria dos destinos, cinco minutos chegam para ir da zona histórica e sair da cidade. Em teoria, mesmo apertada entre colinas, Leiria permite o modelo em que os serviços essenciais (habitação, trabalho, escolas, lojas) estão a 15 minutos a pé ou de bicicleta. Na prática, depende-se do automóvel, os engarrafamentos são comuns e as deslocações pendulares marcam o ritmo dos dias.

Trânsito e turismo desafiam a gestão do espaço público. O presidente da Ordem dos Arquitectos, por exemplo, diz mesmo que “o excesso de turismo mata as cidades”. Por vezes, para adivinhar o futuro basta olhar para o lado.

A pressão sobre a mobilidade de segunda a sexta-feira é uma consequência do crescimento com que Leiria tem de lidar. Entregar o centro a eventos sem cuidar da consequência para moradores e comerciantes é uma escolha. A cidade é de todos e todos têm direito a imaginar que cidade querem: a que deixa passar os supercarros ou a que se recusa a parar no tempo?