Opinião

Artes Visuais | Betty, a Mona Lisa dos nossos tempos

28 nov 2025 08:20

Aqui a modelo mostra-se em movimento, ocultando as mãos e a cara, como que deliberadamente a rejeitar o ser retratada

“La Gioconda” (1506), em italiano “a sorridente”, mais conhecida como “Mona Lisa”, é talvez a pintura mais emblemática do artista renascentista Leonardo Da Vinci. Mostra uma senhora sentada de frente para o espectador, calma, bem vestida e adornada, com um sorriso que já levou a todo o tipo de teorias e interpretações. Por ser de uma execução fora de série, diria que se tornou para mim numa espécie de referência para todo o tipo de pintura, que visa imitar fielmente a natureza anatómica do sujeito retratado.

“Betty” (1988), do pintor alemão Gerhard Richter é uma das pinturas que, sujeita à minha fasquia, reivindica uma análise profunda. A execução é igualmente extraordinária, mas ao invés de mostrar uma senhora bem vestida como em “Mona Lisa”, aqui vemos a filha do autor, a Betty, vestida de pijama. Em Leonardo, o pintor exige uma pose propositadamente frontal e estática, e tenta mostrar as feições e gestos manuais o melhor que pode, para transmitir uma intenção deliberada e simbólica, em tudo o que vemos. Em Gerhard não podia ser mais o oposto. Aqui a modelo mostra-se em movimento, ocultando as mãos e a cara, como que deliberadamente a rejeitar o ser retratada. Parece que tá a fazer birra, não quer ser pintada. A “Mona Lisa” teve de se sujeitar a estar em pose, sabe-se lá quantas horas, a “Betty” por outro lado parece que não está interessada em posar o mínimo. Ambas as pinturas têm um tom esverdeado a preencher o fundo, mas reparem na contradição: a que se vira para trás, olha para um vazio, e dá as costas ao espectador, a que se vira para a frente, ignora a paisagem luxuriante que a rodeia, para entregar a atenção toda a quem a observa. Uma quer que a vejamos, aliás o marido que encomendou a pintura quer que a vejamos, a outra não. A outra o pai quer mostrá-la, mas ela tem algo a dizer, e opta por dizer não.

Ambas as pinturas falam do seu tempo profundamente e são executadas de forma sofisticada, inimitável até, diria. E assim em forma de contraste apresento-vos “Betty”, a “Mona Lisa” dos nossos tempos.