Opinião
As profissões do futuro começam a mudar hoje
Na engenharia, na saúde, no direito ou na gestão, a mudança já se começa a notar
Estamos a preparar as próximas gerações para as profissões do futuro ou para as do passado?
É uma pergunta que me faço quando vejo aquilo que já é possível fazer com inteligência artificial. Há tarefas que, há pouco tempo, ocupavam uma manhã inteira e que hoje podem ser feitas, ou pelo menos apoiadas, por estas ferramentas.
Na engenharia, na saúde, no direito ou na gestão, a mudança já se começa a notar.
Algumas das funções que hoje conhecemos vão provavelmente desaparecer.
Outras vão mudar tanto que dificilmente as reconheceremos quando os jovens que estão hoje na escola entrarem no mercado de trabalho. E, no entanto, continuamos a preparar muitos jovens para um mercado de trabalho que poderá ser muito diferente daqui a dez anos.
Acredito também que um dia deixaremos de falar tanto de inteligência artificial. Lembro-me de quando estar ligado à internet era uma novidade. Hoje, está presente em quase tudo o que fazemos e nem pensamos nisso. Com a inteligência artificial deverá acontecer o mesmo.
Por isso, preocupa-me menos ensinar os jovens a usar estas ferramentas, que serão cada vez mais simples, e mais prepará-los para pensar, fazer boas perguntas, questionar respostas e perceber que problemas vale a pena resolver. O conhecimento técnico continua a contar, e muito. Sem conhecer uma área, como distinguimos uma boa resposta de outra que parece certa, mas não é?
Nas empresas, há uma pergunta que gostava de ver mais vezes: estamos a usar a tecnologia apenas para fazer mais depressa o que já fazíamos ou estamos a aproveitar para pensar de outra maneira?
Numa fábrica, por exemplo, a inteligência artificial pode ajudar a prever falhas numa máquina ou atrasos na produção. É útil e pode poupar dinheiro. Mas a mesma tecnologia, combinada com o conhecimento que a empresa acumulou ao longo dos anos, pode também permitir criar novos serviços, melhorar a relação com os clientes ou encontrar oportunidades de negócio. Essa segunda conversa, sobre o que podemos passar a fazer, parece-me tão importante como a primeira.
Em Leiria, este debate tem particular interesse. Temos empresas com muitos anos de experiência, na indústria e nos serviços, pessoas que conhecem bem os seus setores e instituições de ensino próximas. Aproveitar esse conhecimento para desenvolver novos produtos e negócios não acontece apenas por comprar mais software. Exige investimento, vontade de experimentar e uma maior aproximação entre quem conhece os problemas das empresas e quem pode ajudar a encontrar novas soluções. As empresas têm de estar mais presentes nas escolas e as escolas nas empresas, e com regularidade.
Não sei quais serão as profissões dos nossos filhos. Sei apenas que tentar adivinhá-las não chega. Mais importante é dar-lhes bases para aprender, questionar e adaptar-se a mudanças que hoje ainda não conseguimos prever. E isso tem de começar hoje.