Opinião

Cinema | A inquietude de Quietness

13 jun 2026 15:41

Gonçalo Almeida tem vindo a consolidar uma das vozes mais particulares do cinema português contemporâneo

Há obras que chegam no momento certo. Ou talvez cheguem demasiado cedo, obrigando-nos apenas, mais tarde, a perceber aquilo que já estavam a tentar dizer. Recentemente, passou-me pelas mãos uma curta-metragem que senti merecer destaque, sobretudo à luz do clima político, social e cultural que atravessamos hoje em Portugal, na Europa e um pouco por todo o mundo.

Falo de Quietness, de Gonçalo Almeida, realizador português natural de Santiago do Cacém, cujo percurso cinematográfico se tem afirmado pela construção de universos visuais singulares e por uma linguagem que habita, frequentemente, esse território desconfortável entre o real e o fantástico. Desde a projeção internacional alcançada com a curta Thursday Night (nomeada para o Grande Prémio do Júri em Sundance, em 2018), até aos sucessivos reconhecimentos obtidos com obras como a longa-metragem Faz-me Companhia, a curta A Rapariga de Saturno ou, mais recentemente, Atom & Void, Gonçalo Almeida tem vindo a consolidar uma das vozes mais particulares do cinema português contemporâneo.

A curta-metragem Quietness, de Gonçalo Almeida, acompanha Yessica, empregada de limpeza de um hotel, uma mulher capaz de ouvir aquilo que mais ninguém consegue. A partir desta premissa subtilmente fantástica, o realizador constrói uma reflexão sobre alienação, desumanização e desigualdade social no contexto contemporâneo.

Através do simbolismo e de uma narrativa alegórica, parece-me que Gonçalo Almeida revisita A Metamorfose de forma inversa. Enquanto na obra de Kafka é Gregor Samsa quem se transforma num inseto e é subsequentemente rejeitado pela sociedade e pela própria família, em Quietness são os hóspedes do hotel que assumem essa condição monstruosa. Ainda assim, ao contrário de Samsa, estes “insetos” continuam a ser servidos, tolerados e acomodados pelos trabalhadores do hotel. Transformando, assim, os turistas numa representação grotesca de uma elite consumista e emocionalmente indiferente, criticando uma sociedade em que o lucro e o conforto dos privilegiados se sobrepõem à dignidade humana daqueles que trabalham para os sustentar.

Particularmente interessante é a contradição visual intencional construída pelo realizador. O filme recorre a tons quentes, como amarelos, laranjas e dourados, tradicionalmente associados à intimidade, conforto e memória afetiva. Contudo, essas cores enquadram um universo marcado pela distância emocional e pela ausência de relações humanas genuínas. Os turistas passam pelo hotel como figuras transitórias e indiferentes, incapazes de estabelecer qualquer ligação real com os trabalhadores que sustentam silenciosamente aquele espaço. Essa oposição entre estética acolhedora e vazio emocional amplifica o desconforto subtil que atravessa toda a curta-metragem.

No fundo, é uma obra contida, mas profundamente incisiva, sobre a desumanização produzida pelas dinâmicas de classe e pela lógica capitalista contemporânea que merece muito ser vista.