Opinião

Cinema | Bruno Carnide e a longa viagem até à Academia

10 jul 2026 07:39

Os Óscares distinguem filmes. A Academia distingue pessoas. O convite para fazer parte dela é, antes de mais, um reconhecimento de um percurso construído ao longo de anos e validado pelos próprios profissionais da indústria

A notícia passou discretamente pelos jornais: “o realizador leiriense Bruno Carnide foi convidado para integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas”. Para a maioria das pessoas, isto significa apenas que “agora faz parte dos Óscares”. Mas, na verdade, este é um dos reconhecimentos mais relevantes que um profissional de cinema pode receber.

A Academia é uma organização composta por profissionais de todas as áreas do cinema. São realizadores, actores, produtores, argumentistas, directores de fotografia, montadores, compositores e muitos outros. Desde 2016, tem vindo a alargar e diversificar, significativamente, o número de membros, mas continua a tratar-se de um processo altamente seletivo. Todos os anos, cada ramo propõe profissionais cujo percurso considera excecional e, após um processo de avaliação, é enviado um número reduzido de convites a talentos de todo o mundo. Aceitá-los significa integrar uma comunidade de cerca de dez mil profissionais (onde existem apenas uma dúzia de portugueses) e participar na escolha dos filmes distinguidos com os Óscares.

Os Óscares distinguem filmes. A Academia distingue pessoas. O convite para fazer parte dela é, antes de mais, um reconhecimento de um percurso construído ao longo de anos e validado pelos próprios profissionais da indústria.

Foi essa dimensão da notícia que mais me emocionou quando soube que Bruno Carnide, realizador natural da Ortigosa - Leiria, passava a integrar a Academia.

É que, como sabem, trabalho com o Bruno há catorze anos, na vida, nos filmes e nos Leiria Film Fest. Catorze anos de filmes, de dias que pareciam não ter fim, de planos repetidos até estarem certos, de equipas pequenas a fazerem milagres com poucos recursos. Catorze anos de entusiasmo, mas também de dúvidas, de obstáculos, de portas que nem sempre se abriram. Vi ideias nascerem numa conversa e transformarem-se em filmes que atravessaram fronteiras. Vi o trabalho invisível que nunca aparece nas fotografias das passadeiras vermelhas.

É por isso que este convite me emociona tanto. Porque sei que não nasceu de um golpe de sorte. Nasceu da persistência. Da coragem de continuar a fazer cinema quando seria mais fácil desistir. Da capacidade de acreditar que uma história contada em Leiria pode encontrar espectadores em qualquer lugar do mundo.

Para mim, esta é, acima de tudo, uma bonita confirmação de que o trabalho feito com paixão, longe dos grandes centros da indústria e, muitas vezes, sem os holofotes apontados, pode chegar aos lugares onde parecia impossível chegar: a uma pessoa que vive e trabalha a partir da cidade que até os próprios portugueses teimam em dizer que não existe. E, talvez seja essa a verdadeira magia do cinema: fazer-nos acreditar que os sonhos são maiores do que a geografia.