Opinião

Cinema | Ritmo do Som e da Sexualidade - O Uncanny "Debaixo da Pele"

16 mai 2021 20:00

O som, a música e a linguagem contribuem para criar no espectador uma constante sensação de alienação em "Under The Skin (Debaixo da Pele)", o filme realizado por Jonathan Glazer em 2013

Neste filme de ficção científica, a actriz Scarlet Johansson protagoniza uma mulher que atrai e captura homens em Glasgow, na Escócia; uma criatura aparentemente extraterrestre, que transfigura a figura do serial killer e que se desloca numa carrinha branca.

Estamos perante uma interpretação da figura da Femme Fatale, da bela mulher que seduz os homens e os leva à tragédia última da morte, uma predadora com sotaque londrino, neste caso na Escócia.

O uncanny, o unheimlich, atravessa o filme, num jogo do que parece não ser de facto; a brutalidade que sistematicamente adia a satisfação do desejo humano, nesta constante construção de um ambiente que inquieta e horroriza através da música de Mica Levi e da banda sonora de Nigel Albermaniche (Production Sound Mixer), Steve Browell (Sound Effects Editor) e Johnnie Burn (Re-recording Mixer / Sound Designer / Supervising Sound Editor), que, sem dúvida, funcionam como catalisadores fundamentais para a construção da nossa suspensão da descrença.

Este é um filme em que o que não está é essencial: os silêncios, a incompreensão do discurso dos personagens secundários.

O argumento foi escrito por Jonathan Glazer e Walter Campbell, livremente, a partir do livro homónimo, de 2000, de Michael Faber, num período de desenvolvimento longo, de mais de uma década.

O filme tem, também, como particularidades o facto de vários dos protagonistas não terem experiência anterior como actores e de muitas das cenas terem sido gravadas com câmaras escondidas.

Cenas como as passadas num clube noturno ou num shopping centre, cenas em que a personagem principal passeia pela multidão ou alicia homens para a sua carrinha.

Após estas filmagens, logo de seguida, a equipa pedia a estes homens incautos para lhe concederem permissão para que a sua gravação fosse utilizada no filme e os extremos da narrativa eram bem explicados, caso quisessem fazer parte do filme.

No jogo entre o som e o silêncio, no espaço público, existe algo de evocativo de Death by Chocolate, de Dan Graham, de 2005.

Debaixo da Pele é um filme onde, de uma forma repetitiva, se estabelece uma dicotomia entre sexualidade e morte, pois o prazer sexual nunca é mútuo mas antes uma batalha explícita de poder em que há sempre um vencedor e sempre alguém que perde.

Inicialmente, o jogo está invertido, pois são os personagens masculinos solitários que são as presas trágicas do feminino.

No entanto, no final, é o masculino que reganha o poder da violência e da morte.

Se bem que no fim não saibamos bem se é sobre o feminino, pois a personagem representada por Scarlett Johansson não aparece, no final, como uma mulher da espécie humana.

De facto, a tragédia da personagem é acelerada pela estranheza da sua pele de mulher, no constante contacto com o humano, o que leva a uma crise de identidade fatal.

A personagem é de tal forma desprovida de humanidade, que as cenas de nudez de Scarlet Johansson não atraíram conotações escandalosas, apesar de, já na altura, a actriz ser uma sex symbol de Hollywood.

No entanto, é de notar que a crise de identidade da personagem parece ser despoletada pelo contacto com uma pessoa desfigurada, que ela resolve poupar à morte, talvez por ser alguém que, como ela, escapa ao padrão da normalidade.

À medida que o filme avança perdemos também a influência da música, dando esta lugar ao espaço de um som que se pretende realista, a simplicidade do som na manifestação da crueldade humana. 

 

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