Opinião
Cinema | Tron: Ares
No balanço final, Tron: Ares sofre de uma narrativa frágil, que dificilmente permanece na memória após os créditos finais, sobretudo quando comparado com Tron: Legacy
Tron: Ares (2025) tenta expandir o universo da saga, mas acaba por ficar aquém do impacto que já demonstrou ser capaz de alcançar. A realização de Joachim Rønning é competente, sem nunca ser particularmente inspirada. Não compromete, mas também não eleva o material – e sente-se que o realizador trabalha com pouco apoio tanto a nível de elenco como de solidez narrativa.
A própria montagem contribui para essa sensação: há momentos em que o filme parece apressado ou desarticulado, criando alguma confusão emocional e rítmica, como se certas ideias não tivessem tido tempo para respirar.
No campo musical, a comparação com Tron: Legacy (2010) é inevitável. A banda sonora de Daft Punk continua a ser um marco incontornável, quase inseparável da identidade do filme. Ainda assim, a escolha de Nine Inch Nails para Tron: Ares revela-se interessante e até ousada. O resultado é mais agressivo, mais cru, mostrando um lado diferente – e mais sombrio – do universo Tron. Não tem o mesmo carácter icónico, mas é uma soundtrack que merece ser ouvida fora do filme e que facilmente encontra lugar numa playlist pessoal.
Quanto a Jared Leto, é um actor que não tem medo de arriscar, e isso já ficou bem claro em contextos de ficção científica, nomeadamente em Blade Runner 2049, onde a sua presença era interessante, até nas curta-metragens de promoção. Aqui, no entanto, surge demasiado neutro. Percebe-se a intenção dessa contenção – talvez alinhada com a natureza artificial da personagem – mas o resultado acaba por saber a pouco. Faltou intensidade, mistério ou até estranheza; algo que deixasse marca. No balanço final, Tron: Ares sofre de uma narrativa frágil, que dificilmente permanece na memória após os créditos finais, sobretudo quando comparado com Tron: Legacy.
Ainda assim, nem tudo se perde: a abordagem musical de Nine Inch Nails é um ponto a guardar, e para quem acompanha a saga desde Tron (1982), o filme justifica-se – nem que seja pela surpresa final, que recompensa quem fica até ao último momento. Não é um regresso triunfante ao mundo digital, mas é uma peça curiosa dentro do legado Tron.