Opinião

Cinema |O radical Sirât

23 mar 2026 08:44

A joelhada é tão forte, que a certa altura morremos ali um bocadinho em frente ao ecrã. Mas será que se consegue chegar ao paraíso?

A bomba explodiu em 2025, mais concretamente no Festival de Cannes, onde ganhou o Prémio do Júri. Estamos em 2026 e ainda há muitos estilhaços de Sirât, o filme radical do realizador galego Oliver Laxe, que poderá ser visto no dia 25 de março no Teatro Miguel Franco, em duas sessões, às 18:30 e às 21:30.

Boa parte das sinopses revelam pouco sobre o filme. As críticas e as notícias falam em choque, e eu próprio não fujo a esse palavreado bélico. Mas afinal, que filme é este tão “duro”, tal como o próprio realizador o classifica? Não sei, mas das entrevistas que vi com Oliver Laxe, há uma frase que retive, esta tirada do jornal Expresso: “(…) o espetador no começo vai querer matar-me. Dois, três dias depois, o filme começa a evoluir em cada um. Fica vivo depois de o vermos.” É isso. Eu ando nisto há muito tempo. Talvez a intenção seja levar o espetador a experimentar “o” Sirât, que no Islão significa algo como o caminho que as almas têm de atravessar após a morte para chegar ao paraíso. Talvez. É que a joelhada é tão forte, que a certa altura morremos ali um bocadinho em frente ao ecrã. Mas será que se consegue chegar ao paraíso?

O que se pode saber é que um pai vai com o filho mais novo à procura da outra filha, que pode estar perdida algures no deserto de Marrocos, onde se realizam raves underground com música tecno – a banda sonora ficou a cargo de Kangding Ray, DJ e produtor, que há uns dias esteve na discoteca Lux, em Lisboa, e é um dos residentes do mítico clube Berghain, em Berlim.

Com a ajuda de um grupo de ravers, dá-se início a uma viagem em busca da rapariga. E é aqui que a catarse acontece, suportada por uma banda-sonora que pode ferir a suscetibilidade do espetador.

Já reparou que ando aqui às voltas a tentar não dizer nada sobre o filme, não já? Estamos perante um cinema radical ao nível narrativo, um cinema que surpreende pela sua abordagem crua e emocionalmente violenta, que nos incomoda muito numa primeira fase, a tal em que queremos “matar” o realizador, mas que depois nos faz refletir sobre muitos assuntos, uns reais, outros transcendentais. E há ali muito para refletir, como por exemplo o facto de uma ficção poder incomodar mais do que o terror da realidade a entrar-nos todos os dias pela televisão e o telemóvel adentro.

Ai as imagens de Gaza não impressionam? Ai destruir uma escola e matar as suas alunas para ficar com as rotas do petróleo não choca? Estados a matarem os seus próprios cidadãos por quererem viver em Liberdade não afeta? Então terá de ser a Arte, mais uma vez, a chamar-nos à razão. Como em Sirât.