Opinião
Cómo los caballos preferirían estar pastando
Em que momento da História alguém olhou para um cavalo e pensou: falta-lhe qualquer coisa, este animal precisa de fazer plié
Se ontem tivéssemos entrado num campo e visto um cavalo levantar as patas ao som de uma música, provavelmente teríamos chamado alguém. Não sabemos bem quem: talvez o dono, talvez um veterinário, talvez simplesmente outra pessoa. Porque há situações em que a primeira reacção do ser humano é procurar uma testemunha que confirme que aquilo que está a ver não é uma coisa que está apenas a acontecer dentro da sua cabeça.
Ora, o cavalo já estava bastante completo.
Corre mais depressa do que nós, salta mais alto, pesa centenas de quilos e tem força suficiente para resolver, com um coice, qualquer divergência que pudesse surgir. E, apesar de tudo isto, conseguimos domesticá-lo, pôr-lhe uma sela, sentar-nos em cima dele e convencê-lo de que, dali em diante, parte do seu trabalho consistiria em transportar um homem que tinha pernas próprias, mas preferia não as gastar.
E até aqui compreende-se, porque há uma certa coerência em utilizar a força de um cavalo para fazer aquilo que as nossas pernas fariam mais devagar. Embora talvez seja já aqui que devesse ter surgido a primeira dúvida: uma vez que o animal já nos levava, que mais pretendíamos nós dele?
Em que momento da História alguém olhou para um cavalo e pensou: falta-lhe qualquer coisa, este animal precisa de fazer plié.
Chamam-lhe Cómo bailan los caballos andaluces, que é um título de uma honestidade admirável, porque pelo menos não tenta esconder o que estamos a ver. Embora talvez devesse chamar-se Cómo conseguimos que los caballos hagan cosas que los caballos no tenían pensado hacer, mas isso seria um título demasiado comprido e talvez não vendesse tantos bilhetes.
A própria escola chama-lhe um ballet equestre. Há música espanhola, vestuário à maneira do século XVIII e uma sucessão de coreografias de doma clássica, doma vaquera e equitação tradicional.
O cavalo executa uma levada, uma cabriola, uma corveta, um piaffer, um passage. E aquilo que, sem o nome, poderia parecer simplesmente um animal a fazer uma coisa que não lhe ocorreria fazer, passa a ser uma disciplina, uma técnica, uma arte.
E talvez seja esta a parte mais interessante. Não o cavalo, que faz aquilo que lhe ensinaram a fazer, mas nós, que precisamos de transformar aquilo que lhe ensinámos em qualquer coisa maior do que uma ordem.
Porque uma ordem acaba quando deixa de ser dada, enquanto uma tradição pode continuar muito depois de já ninguém se lembrar de quem deu a primeira.
Porque, enquanto os iniciadores estão vivos, ainda existe a possibilidade, sempre desagradável, de lhes perguntarmos por que motivo tiveram semelhante ideia. E se eles, num momento de fraqueza ou de sinceridade, responderem que não sabem, que lhes deu na cabeça, que foi uma coisa que experimentaram e resultou, ficamos perante uma explicação pouco digna de uma tradição.
Ao passo que, passadas algumas gerações, já ninguém sabe quem foi o primeiro, nem o que lhe passava pela cabeça, nem sequer se tinha alguma coisa na cabeça além da própria ideia. E então podemos dizer, com toda a segurança que a ignorância permite, que vem de longe.
E o que vem de longe, como é sabido, merece respeito.
É assim que uma coisa que começou porque alguém decidiu fazê-la acaba, com o tempo, por parecer que começou porque tinha de ser feita.
Já não se pergunta quem teve a ideia, pergunta-se há quanto tempo é que se faz, como se a antiguidade fosse uma explicação suficiente para a necessidade. Já não se pergunta se era preciso, pergunta-se como poderíamos viver sem isso.
Se amanhã, por alguma razão que agora nos parece absurda, começássemos a ensinar os cavalos a cantar, haveria quem dissesse que era uma nova forma de arte.
Depois haveria escolas, mestres, festivais, especialistas, programas, bilhetes, críticas e, daqui a cinquenta anos, talvez alguém escrevesse que cantar era uma antiga tradição e que seria uma violência contra a nossa identidade deixar os cavalos em silêncio.
E ninguém perguntaria já ao cavalo se alguma vez lhe tinha ocorrido cantar.
Nessa altura, o cavalo cantaria.
E nós, muito emocionados, aplaudiríamos.