Opinião

Composições de palavras…

10 set 2021 15:45

Ensino profissional não é o mesmo que formação profissional

Alguém que perca o mesmo número de horas que eu em busca de soluções para uma escola profissional percebe a páginas tantas que os textos se repetem entre Governo, parceiros, especialistas na matéria, menos especialistas ainda, opinadores em geral e comentadores em particular.

É caso para dizer que de diagnósticos está o país cheio, mais ainda, sobre composição de palavras e princípios gerais nas temáticas da formação profissional.

Mas é penoso viver a realidade no terreno.

Há pouco tempo saíam notícias que “o Governo e os parceiros sociais com assento na Comissão Permanente de Concertação Social, à exceção da CGTP-IN, assinaram dia 28.julho.2021, o Acordo “Formação Profissional e Qualificação: Um Desígnio Estratégico para as Pessoas, para as Empresas e para o País”.

Parágrafos inteiros de boas intenções e bonitas composições, muitas delas encontradas ipsis-verbis naquilo que já foi escrito no PRR e a propósito do PRR (aka Bazuca).

Um Acordo de Concertação Social com muitos parceiros, mas onde pensei encontrar o Ministério da Educação a cruzar a visão disto tudo com o funcionamento concreto de escolas, onde a componente da formação profissional inicial é efectivamente praticada.

E ensino profissional não é o mesmo que formação profissional. Coisas…

A formação profissional vem embrulhada no mesmo “lote” de preocupações em que se atira para as “escolas” a necessidade de mais “qualidade”.

Como é que isto é feito na prática ninguém diz ainda e o ano lectivo começa agora em Setembro, com as mesmas proclamações, mas a viver realidades bem difíceis.

Seria de questionar muita coisa nesta pandemia, sobretudo houve tempo para isso, e para que as soluções funcionassem já neste phasing out de pandemia, mas na prática ainda estamos na fase do LSV (logo-se-vê).

A quantidade de trabalhadores que mudou de sector de actividade ou ocupação diferente foi grande, e podemos ter exemplos de sectores bem próximos de nós, como a hotelaria ou a logística de transporte.

As queixas de falta de mão-de-obra qualificada avolumam-se mas todo o filão da formação inicial (o equivalente ao sistema dual de 10º, 11º e 12º ano de escolaridade em ensino profissional), vem remetido a uma amálgama de parágrafos pelo meio da formação de adultos, requalificações em adultos, requalificações profissionais e claro, com os adjectivos da moda de “digitalização”, a já costumeira “resiliência” e “transições energéticas”.

A imigração tende a equilibrar números de emprego, mas a qualidade de mão-de-obra ou especialização da mesma é uma miragem.

Na prática da vida das pessoas, as respostas oscilam em pacotes de formação de 25h ou 50h, e o ensino profissional especializado (tão proclamado em palavras) deixou de ser um parente pobre, passando a mendigo esfarrapado.

Será inevitável um declínio ainda maior no panorama da mão-de-obra qualificadíssima que era oriunda destas vias.

Temos défice de respostas concretas para pessoas de vidas reais, mas muito dinheiro despendido em graduações que nunca se irão usar, seja nestes pacotes de formação “profissional” seja em cursos universitários, sem qualquer resposta eficaz que não sejam bonitas composições de palavras.



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