Opinião

Os suspeitos do costume

9 jul 2026 08:00

E veio a sandes e a mulher devorou a metade sôfrega. Entrementes passava na rua outra sua igual na miséria: “Vem cá, come aqui esta metade"

Vamos tomar a expressão por empréstimo ao sempre eterno Casablanca, mas desta feita os Bogart e as Ingrid estão-nos próximos, partilham as ruas que são nossas, o Rick's Café podia chamar-se Praça Caffé ou Arquivo ou outro local público ou privado qualquer e outras as melodias para além de "As Time Goes By".

Em comum?

Serem os suspeitos do costume.

Gente sem pudor que não hesita em manifestar publicamente a sua vontade de amar, desafiadores da moral vigente, provocadores, movendo-se à margem da Lei, agitadores assumidos a merecer severa punição.

Apela-se às autoridades policiadoras, às devotas agremiações e às milícias civis que unam esforços para pôr cobro a este flagelo que conspurca as nossas cidades e que, se não travada severa e resolutamente a tempo, pode mesmo contagiar toda uma sociedade com uma praga que corroerá os alicerces dos interesses individuais.

Os suspeitos do costume são facilmente identificáveis e deles deixamos três exemplos.

Ainda há dias um desses meliantes atravessava a Praça, todo airoso e desenvolto, exibindo a idade como se fosse um troféu, quando foi abordado por um petiz de pele escura que lhe travou o passo e lhe perguntou descarado o que levava dentro do saco de papel.

E o cavalheiro, figura destacada pela sua competência técnica enquanto médico, ao invés de enxotar o impertinente, curvou-se, entreabriu o saco e mostrou-lhe os jornais que levava dentro.

Mas não se ficou por aqui.

Encaminhou o gaiato para uma esplanada da Praça e pacientemente foi-lhe explicando o que diziam aquelas folhas todas de papel impresso.

Dias depois um carrinho de bebé era passeado pelo passeio à sombra dos prédios num bairro residencial da cidade.

Uma carrinha de transporte estava estacionada com as rodas em cima do passeio o que impedia a passagem do avô que tentava adormecer o neto para a sesta da tarde.

Eis senão quando o atrevido do condutor da carrinha (um barbudo suado e de tez acastanhada) suspendeu a descarga ao ver o senhor a iniciar a manobra de descer o passeio e desviar-se do obstáculo para passar pela estrada, e, num português achocolatado, que é como falam os brasileiros, balbuciou: "Peço desculpa, eu vou tirar o carro".

"Obrigado, mas eu passo por aqui".

"Nem pensar — respondeu — as crianças têm sempre prioridade nesta vida".

Outro episódio deste desaforo moral ocorreu na esplanada de um snack-bar mesmo no meio da cidade. Uma mulher andrajosa abeirou-se de uma mesa e pediu que lhe dessem um pouco de dinheiro para comer.

O incauto casal ainda perguntou o que quereria ela comer.

"Um pão com omelete".

A mulher foi sentar-se numa mesa lá no canto, escondida na sua fome. E veio a sandes e a mulher devorou a metade sôfrega.

Entrementes passava na rua outra sua igual na miséria: "Vem cá, come aqui esta metade".