Opinião

Das coisas de que são feitos os dias

19 set 2019 00:00

Não sou escritor mas acredito na angústia do vazio.

Estava aqui a olhar para a página em branco e a pensar no que haveria de escrever. Sim, uma página em branco é mesmo assustadora.

Não sou escritor mas acredito na angústia do vazio. Não creio que muita gente se dê ao trabalho de ler as minhas modestas crónicas, mas enfim, algumas haverá e merecem-me respeito, pelo que tento sempre escrever sobre o que aos outros poderá interessar. Mas quem são estes outros? Gente comum, espero.

Por isso, vamos hoje conversar sobre coisas comuns, sobre coisas de que são feitos os dias e assim evitamos aquela resposta que não quer dizer nada mas que repetimos vezes sem fim quando nos cumprimentam com um “então como vai?” e atalhamos com o acostumado “cá se vai andando”.

Que diacho! Andando para onde? Porquê? Com que destino em vista? Nunca fui dado a grandes eventos, coisas épicas ou corajosas, daquelas que ficam para memória futura.

Isto de heróis – salvaguardando as honrosas exceções, que as há – são sempre reconhecidos a posteriori e quase sempre casos em que o herói em causa fugiu para o lado errado e sobreviveu.

Quando não sobrevivem damos-lhe o nome de mártires. Sou assumidamente dado à preguiça, sem propensão a heroísmos e não desejo que me lembrem como mártir. Contento-me em fazer as coisas como posso e sei.

Algumas vezes a coisa até sai bem, outras nem por isso. Importante é fazê-las suficientemente bem.

Aliás, se um dia, por mero acaso, atingisse os limites de mim mesmo que raio teria para fazer no dia seguinte?

Por isso, fico-me pelos pequenos gestos. Coisinhas simples, do quotidiano, daquelas que se fazem e recebemos o troco de imediato, moedas de pouco valor mas que se vão amealhando na nossa bolsa narcísica.

Exemplos? Sem fim se assim os quiser nomear. Na certeza porém que, mesmo que muito modestamente, estarei a contribuir para o bem-estar comum.

Por exemplo, evitar o uso do carro quando

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