Opinião

De pé com as mãos | O livro sem texto

11 jun 2026 11:29

A Feira do Livro não é um templo do saber, é um espaço de exibicionismo social, turismo urbano e acumulação de fetiches

Anualmente, o Parque Eduardo VII transforma-se num ecossistema onde o livro abdica do seu silêncio monástico para se converter num fenómeno de agregação colectiva. À luz do pensamento de Elias Canetti, a Feira do Livro de Lisboa pode ser interpretada não apenas como um certame comercial, mas como uma “massa de festa” — um espaço de “descarga” onde a habitual distância física entre as pessoas é temporariamente abolida em nome de uma suposta comunhão cultural.

Essa “descarga” da massa atinge o seu auge no momento em que as diferenças e o estatuto se dissolvem. Com efeito, na feira caminhamos ombro a ombro, num plano onde o académico e o leitor casual partilham o mesmo espaço. No entanto, esta igualdade é ilusória. No meio da massa, todas as nossas barreiras sociais, de género ou de estatuto podem cair, mas essa aparente dissolução cria apenas uma ilusão momentânea de paz absoluta.

A massa que ali se reúne não procura a revolução do pensamento — ou a revolução stricto sensu —, mas sim a celebração do consumo, onde o livro funciona como capital simbólico. Canetti “abre o livro” afirmando que nada mais tememos do que o toque de um desconhecido, mas, paradoxalmente, dá-se uma inversão: no meio da massa, o nosso medo desaparece e o corpo do outro passa a ser sentido como o nosso próprio corpo. Nessa monumental obra que é Massa e Poder, Canetti analisou os símbolos do poder e a necessidade de acumulação. Na feira, o livro físico — o seu “peso em papel” — transmuta-se num objecto de poder. Acumular sacos cheios de livros replica o nosso instinto ancestral de acumulação.

Este evento cultural de massa é o espaço físico que melhor define a oposição entre cultura e civilização. A distinção entre estes dois conceitos, amplamente debatida na filosofia e na sociologia, é onde melhor se expressa o pensamento dialéctico. Por pensamento dialéctico entenda-se aquele que encara a História como um campo de contradições permanentes entre sujeitos — neste caso, cultura vs civilização. A civilização é o exterior da coisa, a estrutura existente nos seus aspectos materiais, técnicos, económicos e organizacionais, mas também as convenções e as aparências necessárias para a coesão social.

Já a cultura diz respeito aos valores profundos do espírito, à arte, à criação artística e ao nosso desenvolvimento interior; é o conteúdo e a essência livres de interesses comerciais. Ter em vista estas duas noções ajuda-nos a decifrar não só a estrutura deste certame comercial, como a cosmética intelectual de quem nela participa. Por isso, a Feira do Livro de Lisboa é esse ecossistema de feira disfarçada de ágora cultural no qual, uma vez por ano, certificamos a nossa cosmética intelectual através do peso do papel. Seja ao quilo, ao metro ou por atacado, o livro funciona como estética do mostruário: já não é o objecto com o qual nos confrontávamos e através do qual medíamos a nossa insignificância — esse abismo para onde espreitávamos com terror e reverência perante os grandes textos — mas um acessório entre muitos, um adereço (que fica sempre bem numa selfie) no qual substituímos o critério de escolha por um estilo a exibir.

O próprio autor — outrora figura mítica que operava na sombra e no silêncio da sua própria ruína — expõe-se agora na banca como um feirante de si mesmo. Neste ambiente, o livro nada tem a ver com a celebração da palavra; é, antes, o espaço onde o texto é assassinado para ser substituído pelo seu próprio cadáver comercial. Opera-se ali a reificação marxista: o trabalho vivo do espírito é alienado como mercadoria. Despojado da sua força transformadora, o livro sofre o "feitiço do mercado", onde o valor de uso da literatura se ajoelha perante o seu valor de troca.

E o texto que, na sua pureza conceptual, deveria operar como o “rizoma” de Deleuze — isto é, como uma estrutura indomável, caótica e subterrânea, capaz de disparar linhas de fuga e de nos arrancar o pensamento da inércia —, sujeita-se a esta lógica de feira, um dispositivo de captura que domestica qualquer força selvagem que ainda nos restasse. O livro deixa de ser então um acontecimento do espírito para se converter nesse “simulacro purificado” de que Baudrillard falava.

Já não procuramos a vertigem da leitura, mas o signo de sermos leitores, como quem consome uma embalagem de cereais, desde o logótipo da editora independente ao fetiche da assinatura. Esta “hiper-realidade” (Baudrillard) de feira é mascarada pela abundância de papel: a literatura morre para que o seu duplo comercial possa circular como moeda de troca social. Derisórios são, por isso, aqueles que criticam a lógica parola de quem se passeia por um centro comercial, pois caem, paradoxalmente, na idêntica postura comercialóide da feira. Os pavilhões das grandes editoras partilham a mesma matriz de domesticação da fast fashion.

Em Regras para o Parque Humano — um ensaio que Peter Sloterdijk leu em Elmau, na Baviera, a 17 de Julho de 1999, e que suscitou uma virulenta polémica na Alemanha e nessa mitificação a que chamamos mundo ocidental —, Sloterdijk apresentou-nos uma melancólica declaração sobre o falhanço do “humanismo” como utopia de amansamento humano por meio da leitura, face às novas técnicas de desinibição das massas. Sloterdijk desmascara a nossa farsa de rebanho letrado ao argumentar que a convicção tradicional de que os "bons livros" pacificam a nossa animalidade selvagem faliu por completo.

Se, historicamente, a literatura funcionava como uma rede de “cartas a amigos” que nos unia, a feira do livro converteu essa antiga panaceia numa mera técnica de gestão de multidões. O espaço outrora sagrado do texto foi transformado num “parque zoológico humano”: uma cerca gerida e planificada na qual nós, as espécimes urbanas, somos conduzidos ao longo das alamedas do Parque Eduardo VII para consumir cultura inócua. A ironia total é que, quando olhamos de soslaio e de modo elitista para o consumidor do shopping, acreditamos libertarmo-nos pela via do espírito, quando na verdade cumprimos apenas as normas de pastoreio de uma técnica de gestão das massas. Ambos os espaços operam sob o signo do consumo desinibido, mas a feira acrescenta-nos a hipocrisia de uma anestesia moral.

O livro, ali, já não é a ferramenta de combate intelectual concebida por Deleuze, nem o fetiche puro diagnosticado por Baudrillard; é o dispositivo de climatização antropológica de Sloterdijk. Trata-se do biombo perfeito que nos permite passear a vaidade cívica. O livro — domesticado pela máquina de captura mercantil e reduzido ao simulacro do prestígio — serve de engrenagem para que a literatura já não nos arranque da nossa barbárie. Isto é: o humanismo acreditava que a sociedade era uma rede de amigos unidos pela leitura, os livros seriam “cartas de amor” enviadas por autores para se ligarem connosco. Sucede porém que essa comunidade de leitores falhou em domesticar a violência humana: as duas Grandes Guerras Mundiais do século XX aconteceram no coração da Europa letrada. E lá vamos nós, alameda acima, com um saco cheio de resmas de papel a replicar o mesmíssimo impulso pavloviano que empurra as massas para as grandes superfícies, com a única diferença de que o fazemos com a soberba de nos julgarmos salvos.

Do ponto de vista de e da Teoria Crítica (de Theodor Adorno e Max Horkheimer, Peter Sloterdijk), não há diferença entre uma Feira do Chouriço e uma Feira do Livro, pois ambas operam sob a mesma lógica da Indústria Cultural e da esfera pública de consumo. O livro deixa de ser um objecto de emancipação intelectual, passa a ser um produto industrializado, padronização: a lógica de produção de um chouriço (fórmula fixa, embalagem, marketing e consumo rápido) é igual à de um bestseller, no que resulta em entretenimento como alienação. Por isso, ir à Feira do Livro ou à Feira do Chouriço serve o mesmo propósito social: o lazer passivo e o consumo de massas.

Sendo assim, não é por acaso que a Teoria Crítica decreta o fim do humanismo; o fim da ilusão de que a leitura de livros nos torna inerentemente “melhores” ou mais civilizados: A Feira do Livro não é um templo do saber, é um espaço de exibicionismo social, turismo urbano e acumulação de fetiches. Um festival literário e uma feira gastronómica regional usam as mesmas estratégias de marketing, ”viver uma experiência imersiva”, como se diz agora, para atrair o mesmo público consumidor. Em suma, para estes autores da Teoria Crítica, a cultura perdeu a sua aura sagrada, e o livro foi reduzido a um bem de consumo tão perecível e comercializável como um enchido alimentar.

Mas, ao longo deste texto, não deixou de pairar sobre mim a sombra trágica de Peter Kien, o sinólogo ultra-intelectual de Auto-de-Fé, o romance de Canetti cuja obsessão pela sua biblioteca pessoal simbolizava o isolamento e o fetiche pelo objecto-livro. Se esta personagem usava os livros para fugir do mundo da massa — que temia e desprezava —, quando visitamos a feira fazemos o percurso inverso. Transportamos os livros para sermos validados por ela. A Feira encena uma espécie de Auto-de-Fé invertido: em vez de queimarmos os livros, consumimo-los publicamente, sacrificando a reflexão e a introspecção da leitura no altar da visibilidade social e da cosmética intelectual.