Opinião

Deixa-me estar calado | A chama do Fetal

24 set 2026 20:30

Tanto o caminho que parte de Lisboa como o caminho que liga a Nazaré a Fátima não contemplam a passagem pelo Reguengo do Fetal. E isso deveria ser repensado. Uma terra com esta história, esta tradição mariana e uma manifestação tão singular como a Procissão de Nossa Senhora do Fetal deve constar dos caminhos religiosos que atravessam este território

No Reguengo do Fetal, todos os anos, quando Setembro chega ao fim, a noite ganha outra luz.

Nossa Senhora sai da sua ermida e desce ao encontro da população, acompanhada por uma procissão feita de oração e, sobretudo, de gente.

Muita gente.

A história começa, segundo a lenda, com uma pastorinha que, num tempo de fome e seca, chorava no meio dos fetos porque não tinha pão para si nem pasto para as suas ovelhas. Foi ali que lhe apareceu Nossa Senhora. Mandou-a voltar a casa e dizer à mãe que havia pão na arca.

Havia.

Depois pediu que naquele lugar fosse construída uma ermida.

Séculos depois, a história continua. Vieram os peregrinos, as promessas, as festas e a Procissão de Nossa Senhora do Fetal, também conhecida popularmente como Procissão dos Caracóis, iluminada por milhares de cascas de caracóis cheias de azeite, com uma pequena torcida a servir de pavio e que fica em chama ao longo das ruas.

Ilustração de Bruno Gaspar

Em 1905, Roque Gameiro haveria ainda de eternizar esta aparição num painel de azulejos produzido na Fábrica de Sacavém.

Mas há algo que nenhum livro, painel ou monumento consegue substituir: as pessoas que continuam a fazer acontecer a tradição.

É por isso que a recente classificação da Procissão Nocturna de Nossa Senhora do Fetal como Património Cultural Imaterial é tão importante.

Mas esta distinção traz também uma responsabilidade: é preciso contar melhor esta história e reforçar a presença do Fetal no contexto mais amplo do culto mariano em Portugal.

De Nossa Senhora da Nazaré a Nossa Senhora do Fetal, até à dimensão universal de Nossa Senhora de Fátima, existe um território profundamente marcado por lugares, devoções, histórias e pessoas que mantêm estas tradições vivas.

E essa ligação pode e deve ser mais visível.

Estou neste momento a fazer um dos Caminhos de Fátima, entre Lisboa e a Cova da Iria, e outra coisa me chamou a atenção: tanto o caminho que parte de Lisboa como o caminho que liga a Nazaré a Fátima não contemplam a passagem pelo Reguengo do Fetal.

E isso deveria ser repensado.

Uma terra com esta história, esta tradição mariana e uma manifestação tão singular como a Procissão de Nossa Senhora do Fetal deve constar dos caminhos religiosos que atravessam este território.

Não para transformar a tradição numa atracção turística, mas para permitir que quem percorre estes caminhos possa conhecer um lugar onde a devoção, a memória e a vida local continuam profundamente ligadas.

O património imaterial conserva-se mantendo pessoas envolvidas e dando às novas gerações razões para continuar.

Aos que organizam. Aos que participam. Aos que iluminam. Aos que regressam todos os anos. Aos que ensinaram aos filhos aquilo que aprenderam dos pais.

Porque uma tradição não pode ser uma fotografia.

Tem de continuar a mexer-se.

E talvez seja essa a melhor maneira de homenagear Nossa Senhora do Fetal: não deixar que a chama se apague.

No próximo dia 26 de Setembro, quando a Senhora sair da sua ermida, haverá novamente luz na noite do Fetal.

Que essa luz ilumine também o caminho que temos pela frente.

Procissões de Nossa Senhora do Fetal — 2026

26 de Setembro, sábado, 21h00— Procissão de ida, da Ermida de Nossa Senhora do Fetal para a Igreja Matriz.

3 de Outubro, sábado,21h00 — Procissão de regresso, da Igreja Matriz à Ermida.

E, entre uma e outra, continuará aquilo que nenhum título ou classificação consegue, por si só, garantir:

gente a manter acesa uma tradição.