Opinião

Deixa-me estar calado | Próxima paragem: Leiria 2050

11 set 2026 08:19

É precisamente esse o exercício que precisamos de fazer quando pensamos em 2050. Imaginem dizer simplesmente: "Quero estar em Leiria às nove." E o sistema encontrar a melhor combinação: bicicleta, transporte autónomo, comboio e táxi. Um único sistema de acesso. Um único pagamento. Sem quatro aplicações, quatro contas ou quatro bilhetes

Há dias em que olho para uma camioneta do Mobilis quase vazia e penso que há qualquer coisa que não estamos a perceber.

Talvez o problema não seja a falta de transportes.

A Região de Leiria tem RDL, Mobilis, TUMG, POMBUS, Rápida e transporte flexível a pedido. Temos oferta. Mas será que estamos a conseguir comunicá-la?

Uma parte da população talvez nem saiba que estas soluções existem. Ou não sabe onde passam, com que frequência, como funcionam ou como pode combiná-las.

Não basta criar oferta. É preciso comunicá-la de forma simples e próxima.

O problema é também que continuamos a gostar muito do automóvel.

E não tenho nada contra os automóveis. Pelo contrário. O carro continuará a fazer parte da nossa vida durante muitos anos. A questão não é acabar com ele. É pensar como queremos que as pessoas se desloquem no futuro.

Se continuarmos a usar carros, então temos de fazer com que circulem melhor e que chegar à cidade seja mais rápido e eficiente.

É por isso que faz sentido discutir a eliminação de portagens em alguns troços das auto-estradas da região. A CIM Região de Leiria defende a isenção da A19, entre Azoia e São Jorge, da Variante da Batalha e da A8, entre Marinha Grande Sul e Leiria Sul.

Não se trata apenas de retirar trânsito do IC2 e da EN242. Trata-se também de facilitar a entrada na cidade de quem vive nos arredores e precisa de chegar ao emprego, à escola, a um serviço ou simplesmente à cidade enquanto consumidor.

Na Batalha, os resultados mostram que estas decisões podem fazer diferença. A isenção de portagens para veículos pesados na A19 retirou, em média, 148 camiões por dia da estrada junto ao Mosteiro. Foram cerca de 27 mil camiões que deixaram de passar junto a um monumento classificado pela UNESCO.

Isto não é defender o carro.

É perceber que mobilidade também é tempo, acesso e eficiência.

Ilustração de Bruno Gaspar

Ao mesmo tempo, precisamos de tornar os transportes públicos mais simples e atractivos.

Por exemplo, porque não poder levar a nossa própria bicicleta no autocarro, numa estrutura própria, permitindo pedalar até à paragem, seguir viagem de autocarro e continuar depois de bicicleta?

É uma solução simples, mas que permite combinar diferentes formas de deslocação sem termos de escolher apenas uma. A bicicleta, para mim, tem uma estima especial. Mas não a vejo como resposta para tudo. É apenas uma peça de uma mobilidade que será cada vez mais diversificada.

E depois há o futuro.

Enquanto ainda discutimos se a camioneta passa às 8h10 ou às 8h20, há cidades onde já circulam autocarros autónomos, táxis sem condutor, drones que fazem entregas e veículos eléctricos capazes de transportar pessoas pelo ar.

Estou, aliás, a escrever esta crónica precisamente na China.

Tenho visto com os meus próprios olhos formas de mobilidade e transporte de mercadorias que julgava só existirem nos filmes. E, enquanto escrevo estas últimas linhas, estou dentro de um táxi autónomo, sem condutor, que me transporta para o outro lado da cidade.

É difícil encontrar melhor forma de perceber a velocidade a que o futuro pode chegar.

Em 2050, poderemos ter autocarros e táxis autónomos, pequenos veículos eléctricos partilhados, drones e robôs de entrega, camiões autónomos e até táxis aéreos eléctricos.

Mas talvez a maior mudança esteja na forma como todos estes meios vão trabalhar em conjunto.

No Japão, diferentes empresas operam serviços ferroviários na mesma rede. Isto permite imaginar uma Leiria onde diferentes operadores e soluções possam trabalhar sobre a mesma infra-estrutura.

E se tivéssemos carruagens mais pequenas e rápidas, capazes de fazer ligações directas entre as estações com maior procura, nos intervalos dos horários existentes?

Ou veículos rodoferroviários, os chamados DMV (Dual-Mode Vehicle), capazes de combinar estrada e ferrovia e levar passageiros até onde o comboio hoje não chega?

Talvez pareça estranho.

Mas é precisamente esse o exercício que precisamos de fazer quando pensamos em 2050. Imaginem dizer simplesmente: "Quero estar em Leiria às nove."

E o sistema encontrar a melhor combinação: bicicleta, transporte autónomo, comboio e táxi.

Um único sistema de acesso. Um único pagamento. Sem quatro aplicações, quatro contas ou quatro bilhetes.

Talvez, em 2050, a pergunta já não seja:

"Que transporte vou apanhar?"

Mas simplesmente:

"A que horas quer chegar?"

Nessa altura, quero acreditar que o problema crónico do comboio em Leiria já será uma coisa do passado e que a linha ferroviária existente será finalmente aproveitada e integrada numa verdadeira rede regional de mobilidade.

O que hoje parece uma infra-estrutura do passado poderá ser uma das peças do futuro.

Mais cedo ou mais tarde, muitas destas mudanças vão chegar a Portugal. Algumas já estão a chegar.

A questão é se vamos esperar por elas ou se começamos a preparar-nos.

Mas preparar não significa obrigar toda a gente a abandonar o carro amanhã. As transições não podem ser feitas de forma abrupta. É preciso criar alternativas, comunicar melhor, formar, testar e dar tempo às pessoas para mudarem de hábitos.

Não precisamos de escolher entre o carro, o autocarro, o comboio ou a bicicleta.

Precisamos de começar a pensar neles como partes da mesma viagem.

Porque 2050 pode parecer muito longe.

Mas, sentado num táxi sem condutor, do outro lado do mundo, começo a achar que talvez esteja mais perto do que pensamos.