Opinião
Deixem de barrar mamutes em torradas sem glúten. Vão ver o Mundial
Hoje discutimos política como ontem discutíamos território. Discutimos religião como antes defendíamos a fogueira da tribo
Há uma coisa profundamente irónica na condição humana.
Passámos centenas de milhares de anos a construir um cérebro capaz de sobreviver ao frio, à fome, aos predadores e aos outros homens. Depois construímos cidades, inventámos a agricultura, domesticámos animais, erguemos universidades, hospitais, parlamentos, satélites e inteligência artificial. O cérebro, porém, ficou praticamente onde estava.
Na mesma cidade, talvez separados por duas ou três ruas, dois homens estão sentados em dois sofás diferentes. Nunca se conheceram, nunca se vão conhecer, mas acabaram de se insultar por causa de um almoço. Um chamou assassino ao outro porque come um bife. O outro respondeu que vegetarianos vivem de relva e ideologia. Daqui a pouco aparecerá alguém para explicar que o verdadeiro inimigo é o glúten. Logo a seguir surgirá outro disposto a jurar que tudo começou com os óleos vegetais. Não tarda, alguém culpará os hidratos de carbono, o leite, o açúcar ou os alimentos ultraprocessados. O tema pouco importa. Dentro de minutos é bem provável que todos estejam a ver o Campeonato do Mundo, de cerveja na mão, a gritar com um árbitro que nunca ouvirá os seus nomes.
Não porque discutam comida. Discutimos tudo. O curioso é a intensidade. A facilidade com que uma escolha banal deixa de ser uma escolha e passa a ser identidade, moral, pertença e fronteira. De repente, já não existem pessoas. Existem lados. E, quando existem lados, o cérebro deixa de procurar quem tem razão e começa a procurar quem é dos nossos.
Se recuarmos o suficiente, aqueles dois homens têm um antepassado comum. Não interessa se viveu há oito mil, dez mil ou quinze mil gerações. Interessa imaginá-lo. Está escondido entre ervas altas com o resto da tribo. Quase não respira para não denunciar a posição. À frente dele move-se um mamute. Atrás dele estão os filhos, os irmãos e os companheiros de caça. Naquele instante não existem opiniões, ideologias ou preferências alimentares. Existe apenas um cérebro afinado durante centenas de milhares de anos para responder depressa a duas perguntas: isto pode matar-me? E quem está do meu lado?
Esse cérebro chegou inteiro até nós. O mamute é que não.
A evolução trabalha devagar. Tão devagar que algumas dezenas de milhares de anos quase lhe parecem uma distração. Durante quase toda a nossa história fomos selecionados para viver em pequenos grupos, desconfiar do desconhecido, cooperar com quem pertencia à tribo e reagir rapidamente ao perigo. Graças a isso sobrevivemos a glaciações, predadores, doenças, fome e guerras. Graças a isso construímos aldeias, cidades e civilizações. O problema é que o mundo mudou muito mais depressa do que o cérebro que o habitava.
A caça acabou, mas o caçador não. As muralhas desapareceram, mas o sentinela ficou. As grandes batalhas tornaram-se exceção, mas o guerreiro continuou dentro da cabeça. O cérebro nunca viveu apenas de mamutes. Viveu de ameaças, de fronteiras e da necessidade permanente de distinguir aliados de inimigos. Quando deixaram de existir predadores suficientes para justificar esse mecanismo, começámos a encontrar outras formas de o alimentar.
Mudaram os nomes, mas não mudou o impulso. Hoje discutimos política como ontem discutíamos território. Discutimos religião como antes defendíamos a fogueira da tribo. Discutimos alimentação, educação, alterações climáticas, inteligência artificial, futebol, vinho, carros elétricos ou telemóveis com uma intensidade que faria sentido se ainda estivéssemos a decidir quem ficava de guarda durante a noite.
Talvez seja por isso que Desmond Morris viu no futebol muito mais do que um jogo. Enquanto quase toda a gente via vinte e dois homens atrás de uma bola, ele viu uma tribo moderna. Viu símbolos, rituais, território, heróis, cânticos e uma necessidade profundamente humana de escolher um lado. O futebol nunca eliminou o nosso tribalismo. Fez uma coisa muito mais inteligente: domesticou-o. Pegou num instinto com centenas de milhares de anos e ofereceu-lhe um relvado, noventa minutos, um árbitro, duas camisolas e um conjunto de regras. Durante noventa minutos podemos continuar a ser tribais sem precisarmos de incendiar a aldeia do lado. Podemos culpar o árbitro, desconfiar da FIFA, jurar que o penálti era claríssimo, acreditar numa conspiração internacional e regressar a casa sem pegar numa lança.
O problema começou quando decidimos que o estádio nunca mais havia de fechar. Agora há bancadas em todo o lado: na política, na ciência, na religião, na educação, nas redes sociais, à mesa do jantar e na forma como criamos os filhos. Qualquer algoritmo percebeu rapidamente que um cérebro tribal é um excelente modelo de negócio. Basta oferecer-lhe um adversário e esperar.
No fundo, estas guerras nunca foram verdadeiramente sobre comida. Nem sobre religião. Nem sobre política. Nem sequer sobre futebol. Foram sempre sobre pertença. Sobre descobrir quem é dos nossos e quem fica do lado de fora.
A civilização matou o caçador e reformou o guerreiro, mas a evolução esqueceu-se de avisar o cérebro. Saímos da savana, mas a savana nunca saiu completamente de nós.
Por isso, façam um favor a este primata flácido que a civilização construiu.
Vão ver o Mundial. Escolham uma tribo. Percam completamente a cabeça por um penálti aos noventa e três minutos, por um fora de jogo que nunca existiu ou por um árbitro que juram ter sido comprado. Berrem até vos saltarem as guelras pelas orelhas.
É uma utilização francamente miserável de centenas de milhares de anos de evolução.
Mas continua a ser infinitamente melhor do que passar a vida a barrar mamutes em torradas sem glúten.