Opinião

Dizer verdade

25 jun 2020 10:11

Ora, qualquer um de nós sabe e é tentado à maledicência, ao comentário acintoso, à crítica quando a coisa não corre tal como a desejámos. Mas dizer verdade é um compromisso com a vida.

É complicada esta coisa da verdade quando é necessário defini-la.

Os filósofos, esses sim, saberão como a procurar, que metodologia do pensamento para chegar a ela e como varrer do caminho a não-verdade, alguns mesmo terão vislumbrado a sua essência.

Como nada entendo de filosofia, tomo a expressão pela sua utilidade prática e de momento.

Tive o privilégio que um dos meus mestres – aqui entendido como aqueles que muito além dos conteúdos curriculares nos ensinavam a refletir e a pensar sobre o conhecimento por oposição à crença – nos alertar para dois princípios básicos aquando da leitura e interpretação da realidade: ‘contradizer é um dever’ e ‘dizer verdade’.

Com o primeiro aprendi que mesmo quando uma coisa parece finalizada sempre a poderemos melhorar, com o segundo adquiri o vício da inquietação e duvidar sempre do que penso.

Estamos num tempo em que contradizer o que nos dizem parece ser do mais elementar bom-senso.

A profusão de notícias falsas, inverdades, histórias que falseiam a realidade, comentários e análises que mais dizem de quem os faz do que da coisa comentada e a merecer reflexão é o que por aí menos falta. Buscar em nós a crítica do que pensamos e dizemos é imperativo da coerência.

Esta pobre reflexão prévia veio a propósito de pequenas ocorrências destas últimas semanas e no que diz respeito ao modo como se potencia a Cultura na nossa cidade. É por demais sabido que os nossos dias têm andado desacertados.

Planificam-se atividades (algumas com largos meses de antecedência) e depois vem um vírus e o desarranjo instala-se.

O imperativo da defesa da saúde de todos nós tem uma lógica incontornável e força de lei, pelo que semana a semana, dia a dia e, por vezes, na hora, tudo tem que ser repensado e adaptado a uma nova realidade.

Este carrocel de decisões é de todo contranatura com a burocracia e os mangas-dealpaca.

Ora, qualquer um de nós sabe e é tentado à maledicência, ao comentário acintoso, à crítica quando a coisa não corre tal como a desejámos. Mas dizer verdade é um compromisso com a vida.

Diga-se, pois, do modo como a nossa autarquia tem gerido a coisa da Cultura e das Artes nos tempos que correm.

Citando a nossa vereadora da Cultura, “Nos tempos que correm resistir com responsabilidade é um compromisso que devemos assumir e trazer de volta a música, o teatro, as artes no seu todo, constitui uma missão que partilhamos”.

É tão fácil, dirão alguns, pronunciar estes princípios.

É, de facto é. Difícil mesmo é concretizar este desígnio, passar das intensões e palavras aos atos. E dizendo verdade, o acompanhamento e apoio dado pela Câmara aos agentes culturais em plena crise pandémica tem sido exemplar.

Os canais de comunicação permaneceram sempre abertos.

Em tempo de confinamento não houve nunca horas ou dias de expediente.

A procura de soluções podia ocorrer às nove como às vinte-e-uma, quando não mesmo a horas ainda mais tardias.

A informação sempre atualizada ao instante. O esforço de adaptação à realidade e a tomada de decisões alternativas, feito quando era urgente.

E diga-se, em toda a pirâmide organizativa se fez sentir esta plasticidade mental para que a cidade fosse contemplada com o que urgia ser feito, desde o aval para a iniciativa, à licença necessária, ao cabo elétrico em falta.

Tudo isto no instante em que era necessário, no momento preciso.

Há que dizer verdade: assim se constrói o rigor e a exigência.

Obrigado a quem nos apoia assim!

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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