Opinião

É Agosto

6 ago 2026 08:35

Este Agosto, o céu dará mais do que o luar e as estrelas das noites límpidas, quando de novo se procuram constelações

Atravessado o portão que range nos gonzos anunciando que alguém chega, o início do empedrado gasto vai já prometendo as férias que me irão separar do mundo do resto do ano. O caminho segue sob os arbustos altos, de ramos cimeiros em cumprimentos discretos numa dança de pequenas vénias ensaiadas pela brisa que não chega ao chão e não arrefece a pedra que me irá escaldar os pés, mal eu consiga livrar-me dos sapatos.

Os cães, sentados na curva de onde dominam o portão, são tranquilas sentinelas do seu domínio povoado por melros, pardais, rolas, toupeiras, e um ou outro coelho bravo. Irão depois deitar-se na preguiça boa do Sol, de olhos semicerrados ao som das vozes que se fizerem ouvir, apenas despertos e alerta para o som da ração a cair na taça, ou o do arrastar da mangueira que ao final da tarde fará acender arco-íris nas gotas que cairão na relva.

Na casa, a penumbra reforça a nitidez, a identidade e a importância de cada recanto, de cada pequeno objecto, e de cada côr, tudo parecendo necessitar dessa tranquilidade para se tornar uma presença quase viva, carregada de lembranças, acolhedora. Num canto mais sombrio há uma jarra com rosas e, num outro, mais luminoso, são os girassóis a alindar o improvisado quarto de bonecas que se esconde atrás do cadeirão. No relógio, que já contava o tempo aos trisavós da mãe dessas bonecas, vão soando as badaladas das longas horas, das lentas tardes e dos paulatinos serões, chegando a cada recanto da casa grande, onde se ouvem logo pela manhã, ou nas madrugadas de leitura.

O sol forte murcha um pouco as hidranjas, seca a roupa depressa demais, obriga a semicerrar os olhos, faz cantar as cigarras, pede melancia fresca e faz brilhar a água, para onde uma rã — que agora se faz ouvir — há-de saltar mal pressinta passos na relva. Ao som do corpo que mergulha, seguem-se os latidos que pedem a mesma brincadeira de sempre: uma correria desenfreada para tentar apanhar uns pés ainda em voo, antes que desapareçam na água.

A brisa passa por entre a enorme figueira e ao farfalhar das folhas junta-se o som quente do espanta-espíritos de madeira, no meio delas. Há-de a figueira, com a idade da família que aqui se começou a construir, carregar-se dos grandes figos que serão comidos à sua sombra.

Este Agosto, o céu dará mais do que o luar e as estrelas das noites límpidas, quando de novo se procuram constelações como se de uma primeira vez se tratasse. Dará de presente um eclipse solar, uma chuva de meteoros, um agrupamento raro de planetas antes de cada nascer do Sol, um eclipse lunar, uma Lua cheia particularmente grande e brilhante e, a encerrar o mês, Lua e Saturno juntos por uma noite, a lembrar amores de verão.

É Agosto, o mês dos vagares.

O meu mês nesta realidade que eu quero (quase) surda e cega à outra realidade do mundo — aquela onde acontecem os horrores, a intolerância, a maldade e a violência, agora apenas espreitadas nas notícias do dia.