Opinião

Esta nossa cidade

3 jun 2021 15:45

A cidade vive numa agitação de pensamento sobre si própria que é na verdade muitíssimo mais importante do que qualquer conquista de lugar

A propósito do recente dia da cidade, da reabertura do castelo ou, desde há já mais tempo, da sua nomeação para cidade criativa da música e do esforço de candidatura a Capital Europeia da Cultura, muito, e muito bem, se tem vindo a debater sobre que cidade é esta, e que cidade queremos que Leiria seja.

Saber o que fazer, como fazer, e porque fazer é, mais do que um ponto de partida, um verdadeiro mergulho em nós próprios que, por si só, merece todas as atenções.

O debate multiplica-se em temas mais ou menos prementes, em propostas mais ou menos elaboradas, em pensamento de fundo, ou em particularizações.

As opiniões manifestam-se nos meios de comunicação social, nas redes sociais, nas rodas de amigos, e entre pares das diferentes áreas do pensamento, da criação e da produção.

Diz-se bem, e mal; concorda-se e discorda-se; duvida-se e aposta-se. A cidade vive numa agitação de pensamento sobre si própria que é na verdade muitíssimo mais importante do que qualquer conquista de lugar, ou protagonismo, porque só quando nos reflectimos podemos avançar no sentido que nos interessa e não naquele que outros nos queiram receitar.

A identidade é fundadora e, portanto, imprescindível para a continuidade e para a veracidade do que somos e do que formos construindo.

O que acontecer numa cidade apenas será bem feito se souber ir ligando quem a habita numa teia de memórias de momentos belos, de experiências marcantes, de descobertas fascinantes, e de desejos de contar o que um dia se viveu; se fomentar o pensamento, o interesse na partilha de opiniões diferentes, e uma curiosidade transformada em perguntas interessadas em descobrir como foi feito e porque se fez assim; se coligir críticas livres, sérias, e fundadas, e se der asas a quem sentir a urgência de criar, seja qual for o meio de expressão.

De cada acontecimento vivido deverá ficar um rasto que possa ser parte da história de quem o viveu, escrita juntamente com a de todos os outros que lá estiveram também.

Do alto do castelo, olhando a cidade, reflecti no esforço grande de a pensar, e na simplicidade de a fazer acontecer; na preocupação de a tornar plural, e na pluralidade das gentes que a habitam; no planear da sua coesão, e nas raízes fundas que a constituem; no projecto de futuro que se quer tornar, e na importância de se viver o que é presente.

Uma cidade cresce à medida de quem a habita e do que dentro dela se faz acontecer, tornando-se aos poucos consciente e segura de si, numa maturidade lenta de atingir, e que permitirá, por fim, receber, assimilar, e enriquecer-se, com o que venha de fora e, mais tarde, projectar-se além-fronteiras sem tibiezas, menoridades ou incertezas.

Mas é de dentro para fora, cavando alicerces, cruzando pontes, e construindo uma memória comum, que as ruas, praças, monumentos e lugares de cultura servirão às gentes que os habitem como reflexo do que eles próprios vão sendo, e construindo.



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