Opinião
Extramuralhas condena o genocídio
Não temos nada contra, mas não nos confundam com um sunset de praia. Nós queremos mesmo despertar consciências, combater a letargia com os nossos exércitos de vozes e palavras escritas
A 15.ª edição do festival Extramuralhas tem como mensagem “Genocide Is the Shame of Mankind” (“O genocídio é a vergonha da Humanidade”). Há palavras que carregam uma dor desmedida, e “genocídio” é uma delas. É sinónimo de morte em massa, da tentativa deliberada de apagar um povo da História, de silenciar uma língua, uma cultura, uma religião, um grupo racial ou étnico. É o mais extremo triunfo do ódio sobre a humanidade.
Na guerra, confrontam-se exércitos, Estados ou grupos organizados. No genocídio, perseguem-se e aniquilam famílias, crianças, idosos, professores, artistas, médicos, atletas, gente indefesa…
O século XX conheceu horrores que julgávamos irrepetíveis: o Holocausto nazi, que vitimou cerca de seis milhões de judeus e milhões de outras pessoas, o genocídio arménio, o genocídio no Camboja sob o regime dos Khmer Vermelhos, o genocídio dos Tutsis no Ruanda e o genocídio de Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina. Cada um destes exemplos deveria bastar para que a palavra “Nunca” tivesse um significado absoluto. Infelizmente, a História continua a escrever páginas que achávamos inimagináveis. Os Rohingya em Myanmar permanecem vítimas de perseguições sistemáticas. Em Gaza, e não obstante o Tribunal Internacional de Justiça ter determinado medidas cautelares para proteger a população civil, numerosos especialistas independentes das Nações Unidas têm denunciado uma matança de proporções devastadoras e com requintes de malvadez.
Ao que parece, o “exército mais moral do mundo” é um logro, e é tão imoral e abjeto quanto uma horda raivosa desprovida de qualquer piedade. As evidências são tantas que já nem dá para as esconder. A justiça internacional seguirá o seu caminho, mas tarda em agir. Esperemos que os culpados sejam julgados antes que caia a última vítima.
Deste lado, neste país de brandos costumes, há quem nos prefira calados, amorfos, alheados porque “apenas” organizamos concertos e a malta quer é descontrair e alienar-se um bocado sem se aborrecer com coisas que incomodam. Não temos nada contra, mas não nos confundam com um sunset de praia. Nós queremos mesmo despertar consciências, combater a letargia com os nossos exércitos de vozes e palavras escritas.
A indiferença nunca salvou ninguém, quanto mais um povo… A maior vergonha de um genocídio começa em quem o comete e perpetua-se em quem escolhe ignorá-lo.