Opinião
Letras | Casa-museu Afonso Lopes Vieira, S. Pedro de Moel (2026) OU crónica de um naufrágio anunciado?
Tempestades fazem-nos lamber as feridas antigas e refletir sobre o corpo por vir
0. Declaração de interesses. Tornei-me uma das especialistas de referência sobre a obra e personalidade literárias de Afonso Lopes Vieira (2001, doutoramento em Literatura Portuguesa; 2008, pós-doutoramento em História da Imprensa). Sou professora coordenadora do IPL (Universidade de Leiria e do Oeste), em exclusividade, há cerca de 40 anos e, nessa qualidade e enquanto membro de uma das suas unidades de investigação, orientei um estudo sobre o espólio da Casa-Museu, publicado pelo IPL em 2013. Foi estabelecido um protocolo com a edilidade da Marinha Grande [CMMªG], que previa o trabalho conjunto entre a equipa do IPL e a da Câmara (o que aconteceu com eficácia), bem como a publicação on-line das ‘fichas matrizes’ (algo como o cartão de identidade de cada uma das peças do acervo estudadas) no site da CMMªG, para usufruto de toda a comunidade de investigadores e visitantes futuros (o que até hoje nunca aconteceu, embora os dados estejam na posse da edilidade). Não desempenho nenhuma função oficial junto da instituição patrimonial, nem nunca desempenhei, a não ser a de constante amiga da Casa-Museu Afonso Lopes Vieira (CMALV), desde 2005, data da sua inauguração como hoje (ontem?) a conhecemos. Tenho defendido a candidatura à rede nacional de Museus, pelo menos desde a conclusão do estudo, em 2013.
1. Catástrofe anunciada. Bem superior a qualquer aviso (?!), a fúria da depressão Kristin revelou muitas fragilidades. Com perturbante atraso energético, as redes sociais mostraram a rampa de acesso à praia com uma fratura exposta, bem como a brecha galopante na varanda da CMALV. Propositadamente, não escrevo o nome dos autores das fotos inaugurais reveladoras do desastre, mas orgulho-me da sua amizade e da confiança depositada em mim para servir de intermediária com os ‘poderes municipais’. Os meus mails, endereçados no domingo 8 de fevereiro 2026 para as vias oficiais, seguiram uma ordem: divisão da Cultura, Património Cultural e Turismo; Presidente da CMMªG; Presidente da Assembleia Municipal. As respostas foram dadas tarde nessa mesma noite ou na manhã da segunda-feira seguinte, e todas revelavam as primeiras medidas tomadas desde a informação do poder central até à convocação de técnicos do LNEC para avaliação do desastre e proposta de eventuais soluções.
2. Grandes males, pequenos remédios. Na terça, dia 10, a responsável da CMALV liderou o movimento de deslocação e salvaguarda das peças transportáveis da CMALV para uma sala do rés-do-chão do próximo edifício Cosmos, onde foi possível armazenar provisoriamente o acervo em risco. A equipa camarária era constituída por três funcionários (cujos nomes espero nunca esquecer…). Eu e o meu amigo fizemos parte desta nobre tarefa, que foi reforçada ao longo do dia com outros voluntários inesperados e muito bem-vindos. Neste momento há uma sala do Cosmos ‘atulhada’ com as ‘velharias’ da CMALV. O único registo dessas peças patrimoniais continua a ser o do estudo referido, bem como as fotografias que acompanham cada uma das fichas: o segredo dos deuses, fisicamente amontoado e salvo num lugar cósmico…
3. Naufrágio da Casa Catrineta. Tempestades fazem-nos lamber as feridas antigas e refletir sobre o corpo por vir. Se o ‘lugar literário’ sempre esteve exposto às intempéries (que têm feito a CMALV ficar fechada durante várias épocas balneares anteriores), se a CMMªG não tem possibilidades de pagar a uma equipa individualizada, autónoma embora associada aos outros dois edificados culturais patrimoniais (o Museu do Vidro e o Museu Joaquim Correia), então talvez as palavras poéticas de ALV no seu último livro Onde a terra se acaba e o mar começa, de 1940, o 13.º cantar dos búzios, nos façam ouvir com mais de 80 anos de atraso, o melancólico augúrio que não soubemos/quisemos/sonhámos desconstruir:
Casa Catrineta, / desprende-te enfim do chão, / entra-me pelo mar / e lá ao largo vai naufragar / para ir ao fundo com o meu coração! // Oh! não poder arrancar-te do chão! / E, gajeiro, embarcar / em ti, meter-te ao mar / para ir naufragar, / para ir ao fundo com o meu coração!...