Opinião
Letras | Cuidado com o homem de gravata azul às pintas
Saramago dirige o ritmo de leitura com a sua sábia batuta literária. No meio da pulsação orientada surgem temas transversais à sua obra, como a democracia, as desigualdades sociais, os jogos de poder e a corrupção
E se as pessoas decidissem votar em branco num processo eleitoral decisivo para o país?
A premissa só poderia ser de José Saramago, que nos habituou a questões de partida inesperadas, revirando as voltas da normalidade. É o mote para Ensaio sobre a Lucidez, romance publicado em 2004 que caminha, como tantos outros do Nobel da literatura, para a intemporalidade.
Neste livro, que chama à reflexão em quase todas as linhas, acredita-se mesmo na surpreendente realidade com que nos confronta Saramago: na capital de um país imaginado, verifica-se que há 70% cento de votos em branco e que, repetidas as eleições, o número sobe para os 83%.
O governo acredita que o povo é o principal suspeito de uma conspiração em que os simpatizantes dos partidos da esquerda, da direita e do centro estão envolvidos. Um processo é desencadeado pelos governantes, revelando fragilidades individuais e fomes de poder.
Segue para o terreno uma operação policial para investigar o caso e evocam-se elementos vindos do poderoso Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995, que nos traz de volta o médico e a sua mulher, tida como principal suspeita por não ter cegado.
No meio do processo, é-nos apresentado um comissário da polícia que se vai humanizando à medida que imerge mais no caso e, muito subtilmente, um (in)suspeito homem de gravata azul e pintas brancas.
Entre a desesperante espera dos eleitores, no início do livro, a posterior afluência às urnas e o processo de investigação, depois de se conhecerem os resultados dos votos, Saramago dirige o ritmo de leitura com a sua sábia batuta literária. No meio da pulsação orientada surgem temas transversais à sua obra, como a democracia, as desigualdades sociais, os jogos de poder e a corrupção.