Opinião

Letras | Ian McEwan (2025), O que podemos saber OU o mistério prodigioso dos serões de S. Pedro…

28 ago 2026 08:55

Poderá vir a ser como A Quinta dos Animais de George Orwell e antecipar (esquecendo o paradoxo socrático…) como sabemos quase nada ou sempre menos do que julgamos

Há sempre um mês de Agosto para quebrar as pretensões de rigidez e seriedade grave; ‘silly season’ ou não, as trivialidades e os assuntos frívolos brotam das pedras e… no entanto… o muro da casa-museu Afonso Lopes Vieira, em S. Pedro de Moel, continua a desmoronar-se e a brecha da varanda a alargar milimetricamente, com a precisão dos olhos espantados dos veraneantes – ofuscados pelo milagre do sol (sem nevoeiros) e pela temperatura excecionalmente quente do oceano atlântico – que abancam encostados à anunciada derrocada, sem medo nem aviso de nenhuma hierarquia superior. Ainda não há IA que nos instrua sobre o futuro, e ninguém pode saber o que acontecerá – naufrágio ou metamorfose? – porém, se daqui a 100 anos algum investigador escolher o tema para análise, o que poderá saber de concreto sobre o tema e quais as fontes credíveis em que poderá procurar, nesse futuro instável?!

Os leitores já suspeitaram que não irei falar sobre o peso que trago no coração, e não é trivial nem frívolo; porém, vou abrir uma exceção e falar dum autor britânico, Ian McEwan, nascido em 1948 e com 22 romances publicados, todos eles dentro da categoria dos ‘bestsellers’ e alguns com adaptação para cinema, vencedor de variados prémios internacionais e – talvez – um dos maiores nomes da literatura universal. A exceção vem da minha ‘respiração’, neste agosto extraordinário depois da Kristin, ser de literatura estrangeira e não portuguesa: li já por duas vezes este especial romance como um augúrio das penosas estações que esperam todos os investigadores e leitores do mundo se continuarem vivos no futuro. Nesse sentido, para mim, O que podemos saber, poderá vir a ser como A quinta dos animais de George Orwell e antecipar (esquecendo o paradoxo socrático…) como sabemos quase nada ou sempre menos do que julgamos – sobre tudo à nossa volta e ainda mais sobre os assuntos oficiais que o Estado ou as instituições ou a academia pretendem albergar dentro do seu regaço.

Thomas Metcalfe, professor universitário e solitário investigador, habitante no sul inundado do que costumava ser a Inglaterra, em 2120, resolve investigar o que se terá passado num jantar para amigos e colegas próximos, em 2014, quando o conceituado poeta Francis Blundy resolve homenagear a sua mulher, lendo-lhe no aniversário um novo poema: “Uma Coroa para Vivien”. No fundo a estrutura desenvolve-se como um enigmático romance policial: o poema nunca foi publicado, e Thomas só tem acesso, cem anos depois, às reações da imprensa e da academia onde há referências ao assunto, mas também às bases de dados informáticas que restam nas poucas bibliotecas sobreviventes das variadas, múltiplas e destrutivas catástrofes provocadas pelas alterações climáticas – onde, com muito esforço, tenacidade e paciência (tríade do ‘atleta do saber’?), o professor procura nas trocas de mails entre os participantes e nos seus blogs ou nos poucos manuscritos diarísticos que foram preservados, construir o puzzle dos acontecimentos para aceder a um local (o x da ilha do tesouro?) onde a verdade / o texto transpareça e seja o mesmo para todos os ouvintes do unicum proferido numa data registada.

Com uma eloquência irónica e cáustica, sempre educada (aliança britânica?), o narrador Thomas, capaz de duras críticas a si próprio e ao mundo que o cerca, descobre efetivamente o que procura. Obviamente que não será o que acreditava e queria encontrar… só o prazer da leitura sublima tamanha frustração e brilho oculto do ‘buraco negro’ que é cada ser humano, em cada única circunstância e aprisionado nos lugares desconjuntados do futuro. Tem a voz ficcional da tecedeira Vivien, fulgor feminino do melhor e do pior que há em cada prisão do ser humano.

No presente desconjuntado deste camoniano e lugar literário afonsino ‘Onde a terra se acaba e o mar começa’ (pedra da epígrafe rachada ao meio…) vou sublimando a incógnita dos dias futuros com a peça das Folhas Platónicas “Depois da tempestade”. Se bem me lembro, há uma (ou duas?) fala em que Miguel Linares/Afonso Lopes Vieira diz que “todos os homens apressados são homens infelizes” e o belo chá otimista e ternurento da dramática e elegante Carolina Santarino/Amélia Rey Colaço mostra que apesar de nem todas as árvores morrerem de pé: a semente da arte persiste em germinar nos Serões de S. Pedro. Mistério prodigioso.