Opinião

Letras | José Régio. Correspondência com Vitorino Nemésio (2007) OU as questiúnculas literárias

29 jan 2026 08:00

Ler a vintena de textos epistolares transcritos é uma imersão trabalhosa e ativa, implicando reflexão e crítica

Pergunto-me se o facto de nos ter calhado viver este 1.º quartel do séc. XXI – sofrido e beneficiado dos avanços da tecnologia e do horizonte das redes sociais – ainda nos permite ler e refletir de modo contextualizado sobre correspondência manuscrita trocada entre 2 grandes figuras da nossa cultura literária há quase 100 anos. Vem isto a propósito do volume da Obra Completa de José Régio (JR: 1901-1969), com a Correspondência com Vitorino Nemésio (VN: 1901-1978) – 8 cartas enviadas por JR e 11 remetidas por VN, escritas entre 8 fevereiro de 1934 e 28 novembro de 1938 – publicado em 2007 pela IN-CM, com apresentação e edição de Isabel Cadete e Manuela Vasconcelos (16,35 euros).

O sucinto texto inicial das especialistas fornece ao leitor com todo o rigor a linha mestra de orientação interpretativa de um discurso epistolográfico, a exigir competências de conhecimentos histórico-literários / sociais / políticos / psicológicos que atualmente poucos possuem. Ler a vintena de textos epistolares transcritos é uma imersão trabalhosa e ativa, implicando reflexão e crítica, por vezes revisionismo de conceitos pré-concebidos, na intimidade do universo literário de 2 homens tão diversos e idiossincráticos, embora pertencentes a uma mesma geração, no meio complexo e conflituoso da sociedade e política dos anos antes da II Guerra e no apogeu do Estado Novo; no arquetípico entendimento de como os sentimentos, emoções e atitudes de ambos eclodem em vestígios na memória cultural portuguesa.

Para mim (com interesses particulares quer na época cronológica em si quer na teorização sobre Correspondência entre figuras culturais de relevo), a principal linha de leitura prende-se com o facto de haver muitas lacunas na correspondência – o que remete para as impossibilidades objetivas de encarar o volume como um registo histórico factual e fonte inteiramente explícita, ou de instrumentalizar a fragmentação como esclarecimento das características complexas de tão diversas personalidades e da contenda em que ambos se envolveram a propósito da Revista de Portugal (RP: desde 1937 até 1940, publicada em Coimbra, dirigida por VN com Alb. de Serpa como secretário, e com colaboradores como JR, M. Torga, A. Casais Monteiro, J. Gaspar Simões, Delfim Santos, Sant’Anna Dionísio e J. Marinho) em relação com a revista Presença (P: desde 1927 até 1940, Coimbra, dirigida por Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca (que abandonou a direção em 1930, alegando falta de criatividade, sendo substituído em 1938 por Casais Monteiro) e JR e com colaboradores como os homens do 1.º Modernismo, Torga, Aq. Ribeiro, Ed. Bettencout, C. Queiroz, Júlio/Saúl Dias).

Os textos epistolares evidenciam 2 figuras radicalmente diferentes – “O relacionamento entre JR e VN nunca foi de grande amizade nem de intimidade. Apesar de algumas manifestações de admiração mútua, a nível do desempenho das carreiras literárias, as divergências de temperamentos e de perfis culturais foram sempre responsáveis por uma certa tensão latente e pela prudência com que se criticavam mutuamente” (opus cit., p. 10) – e a dimensão de cada ego fará com que os desentendimentos tenham impossibilitado a sobrevivência da colaboração de presencistas na RP, contribuindo para o seu desaparecimento. Isso é visível no Apêndice das pp. 71-123, com fragmentos de cartas de Casais Monteiro, Serpa, Gaspar Simões, JR, VN à volta do tema P vs. RP.

Qualquer estudioso destes temas encontrará aqui um manancial surpreendente das ‘vaidadezinhas e mesquinhices’ do acanhado meio literário de então, estado de que Afonso Lopes Vieira sempre se queixara, defendendo que nos faltava uma “Arte de Admirar” – projetada com Reinaldo dos Santos, para ‘civilizar’ o nosso meio artístico… E, no entanto, sobre todas as questiúnculas literárias, todos estes homens de letras concordariam com as ideias de JR numa carta de julho de 1937: “Quanto a criação, inspiração e trabalho […]. A resposta de várias personalidades da minha geração, ou já da seguinte, o que penso é que lhes faltam aquelas exactamente aquelas qualidades de ruminação, de paciência, de persistência, de trabalho, sem as quais todo o poder de criação se limita, e toda a inspiração não produz senão clarões (quando não fogachos) intermitentes. […] Cá por mim, sempre foi o meu maior sonho ser ao mesmo tempo um criador e um operário; para completar a nota: um boémio e um homem de gabinete ou oficina.” (opus cit., p. 40). E quanto a nós, nas velozes redes deste 1.º quartel do séc. XXI?