Opinião

Letras | O Meu Amante de Domingo

20 fev 2026 08:36

Sem me deixar chocar pelos palavrões, pelas cenas de sexo, pelo anómalo das vidas referidas, nem pela confusão que vai no íntimo da narradora, encantaram-me as muitas referências literárias

Do pouco tempo que gasto a ver televisão, acontece, por vezes, poucas, ouvir falar de literatura. Aconteceu, frequentemente, ouvir a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho no programa Volta ao Mundo em Cem Livros que muito apreciava. Sem nada dela ter lido, apareceu-me o livro O Meu Amante de Domingo de 2014 (Tinta da China).

Com desconto e a tratar do domingo que é dia que sempre me entediou, comprei – podia até trazer-me alguma coisa em favor desse dia que me aborrece. Mas não foi o caso. A narradora, uma doutorada, a rever as 500 páginas da biografia de Nelson Rodrigues, recentemente regressada do Brasil e instalada no interior alentejano, todos os domingos vai a Lisboa (Carnide), no seu jipe velho, um Lada Niva de 1994 para tratar da gatinha de uma amiga que faz pesquisa no Rio de Janeiro, aproveitando para fazer umas piscinas no Parque Eduardo VII porque sente a falta do mar no interior onde vive.

Ora um domingo, ali para o Pinhal Novo, o Lada começou a deitar fumo – um transtorno! Mas o homem do reboque conhecia um mecânico ali na Bobadela que lhe trataria da avaria. E, de facto, na segunda-feira de manhã, depois de trocarem mensagens cheias de erros por parte do mecânico, lá se encontraram na Bobadela para recuperar o jipe. O encontro foi determinante: o mecânico – não obstante os erros de linguagem – agradou de aspeto à narradora (cinquenta anos e cinquenta quilos, ela; ele tem menos dezasseis anos) a quem começou de imediato a chamar de ‘caubói’ e de ‘meu futuro amante de domingo’. Que assim vai ser: todos os domingos de manhã, ele vai ter com ela a Carnide para irem para a cama. [Eu uso o ‘eufemismo’, já que por esta altura do livro, Cap. IV, a narradora e o caubói já usaram o vernáculo dezenas de vezes.]

As cenas de sexo são também naturalmente descritas, com o cómico que ressalta da diferença de estado social e cultural de cada um dos amantes. Mas uma das conclusões que a narradora tira deste caso é que “Nada mais excitante do que sexo com um desconhecido, e esse desconhecido sermos ambos”. E começa a pensar em escrever um livro sobre este caso com o nome de O Meu Amante de Domingo, embora afastada já do primeiro beijo “uma agulha do DNA do cabrão do caubói” – uma vingança? Aliás, toda a narrativa é atravessada por um sentimento de vingança, de vontade de matar, talvez originada pela biografia de Nélson Rodrigues, ’mestre do vermelho-sangue’. Narra outras distrações amorosas, estranhas, como um amigo poeta em Nafarros, ele também bem estranho, que sonha com o Nobel. E é assim, nesta confusão de acontecimentos, que começa ‘a brotar aos borbotões’ o livro.

Sem me deixar chocar pelos palavrões, pelas cenas de sexo, pelo anómalo das vidas referidas, nem pela confusão que vai no íntimo da narradora, encantaram-me as muitas referências literárias que, para além do já citado Nélson Rodrigues, trazem Euclides da Cunha, Machados de Assis e o seu Brás Cubas, Balzac, Lispector, entre outros.