Opinião

Letras | Palavras são Imagens são Palavras, Sérgio Godinho

23 jan 2026 08:46

Tudo tem um elemento incitador da curiosidade e da observação. Aborda as paisagens amplas do exterior e as viagens profundas à intimidade. As presenças e as ausências

Nascido em 1945, é cantor, compositor e escritor português, referência da música popular pela poesia e consciência social das suas canções. Com mais de cinco décadas de carreira, criou clássicos que marcaram gerações e publicou obras literárias como Coração Mais Que Perfeito, As Letras das Canções e O Amor Mais Perfeito. A sua arte cruza música e palavra, tornando-o uma figura ímpar na cultura portuguesa.

Na escrita, dedica-se a verter do quotidiano as imagens que por vezes fotografa ou pinta. Tudo tem um elemento incitador da curiosidade e da observação. Aborda as paisagens amplas do exterior e as viagens profundas à intimidade. As presenças e as ausências. O amor e a perda. Os símbolos e a simplicidade.

A escrita deste livro detém-se livre e sem as regras da canção, ainda que se lhe sinta o movimento, um balanço, um embalo. Por vezes também pela própria ausência demarcada do verso, a poesia vive em Palavras são Imagens são Palavras. Seja pelo poema escrito, seja pela prosa, as imagens apresentam-se de forma clara, tal como a sua sensibilidade na pintura ou na fotografia, elevando a palavra silenciosa a se mostrar.

Neste dia que vos escrevo, é domingo de eleições presidenciais. Salta à vista o poema “Irmãos de Sangue”.

A cama deixada com vagar
a tela pintada numa tarde. 
Quem se fica e quem se evade?
O sangue mais bencorrente do mundo
a tinta mais ascendente da terra.
Quem se fica e quem se eleva?
É domingo.
Irmãos de sangue
irmãos de tinta.

Votos de bons votos.