Opinião

Letras | Poetas ignoradas

25 jun 2021 20:00

Não somos, infelizmente, um país de letrados nem de grandes amantes da leitura

Concorrem para isso a nossa baixa escolaridade ao longo do século XX e o preço dos livros que sempre foi elevado tendo em conta as nossas parcas bolsas.

Século XX que tantos escritores extraordinários produziu, grande parte deles completamente esquecidos, ignorados, pior se falarmos de poesia e pior ainda se pensarmos em poetas no feminino!

Três foram os nomes de poetas no feminino que, sem procurar, vieram ter comigo:

Judith Teixeira (1880 – 1958), nascida em Viseu, foi considerada por Couto Viana «a única poetisa Modernista». Publicou na década de 20 três livros de poesia Decadência, Castelo de Sombras e Poemas de Bizâncio; e duas novelas sob o título de Satânia. Fez conferências e dirigiu a revista Europa. Dado a temática lésbica de muita da sua produção literária, foi atacada violentamente (tal como aconteceu com António Botto e Raul Leal) pela imprensa conservadora e Marcello Caetano chamou-lhe «desavergonhada» regozijando-se quando os seus livros foram queimados. Não voltou a publicar depois da queda da I República.

Leonor de Almeida (1909 – 1983) nascida no Porto, publicou quatro livros de poemas: Caminhos Frios (1947); Luz do Fim, (1950); Rapto, (1953); e Terceira Asa, (1960).  Quando lançou o seu primeiro livro, foi considerada «uma extraordinária revelação» e críticos como João Gaspar Simões e Jacinto Prado Coelho apontaram-na como «um dos melhores poetas portugueses» e destacaram a sua «personalidade lírica invulgar». A sua poesia é essencialmente erótica e satírica; «a sua linguagem exprime uma visão pan-erótica do Universo» - escreve Natália Correia. Foi admitida na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto em 1950 e uma das primeiras associadas da Associação Portuguesa de Autores. Terá sido perseguida pela PIDE dado os seus dois maridos – Júlio Magno e depois o escritor Alexandre Pinheiro Torres – terem ligações à esquerda.  Depois do 2º divórcio, em 1961, que muito a abalou, e talvez por isso, Leonor desapareceu em termos literários. Depois de ter sido poeta, enfermeira, fisioterapeuta, aventureira, termina como esteticista usando uma peruca e o nome de D. Márcia.

Maria Amélia Neto (1928 – 2016) nasceu no Montijo e foi tradutora e secretária de direção na Siderurgia Nacional. Pertenceu com José Gomes Ferreira à primeira direção da APE. Traduziu T. S. Eliot – Quatro quartetos (1963) e Terra sem vida (1972). Publicou seis livros de poemas, quatro dos quais entre 1960 e 1966 em edição de autor, com pouca circulação. João Gaspar Simões escreve duas críticas no DN sobre dois dos seus livros e Jorge de Sena elogia «a sua viva sensibilidade visionária, a sua contida melancolia solitária e um intenso sentimento do mundo despido de sentimentalismo e de derramamentos emocionais». Pode ler-se no Jornal de Letras de abril/maio que «morreu sitiada por um muro de silêncio, sem que uma notícia, um obituário ou uma única palavra sobre ela tivessem vindo a lume (…) Era uma poetisa esquecida, cujo rasto se diluíra de todo, o que é vulgaríssimo numa atmosfera onde os poetas se multiplicam e desaparecem como tortulhos efémeros.»

Afortunadamente, graças ao trabalho de investigação de alguns estudiosos e ao esforço de alguns livreiros, estas três escritoras têm parte das suas obras reeditadas.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990