Opinião
Letras | Terreno, Duarte Scott
A obra destaca-se pelo rigor formal: Duarte Scott utiliza técnicas e formas sofisticadas, poemas em colunas paralelas, versos de uma única palavra, engenhosas aliterações e translineações
É o segundo livro de poesia de Duarte Scott, publicado em agosto de 2025 pela editora Tinta-da-China, na coleção dirigida por Pedro Mexia. O livro sucede a estreia do autor com Exposição (2022).
O título remete para três dimensões: o “externo”, o “terno” e o “interno”. Assim, “terreno” é entendido como espaço — material ou imaterial — e também como adjetivo, jogando com a polissemia, tal como acontecia no livro de estreia do autor.
A obra destaca-se pelo rigor formal: Duarte Scott utiliza técnicas e formas sofisticadas, poemas em colunas paralelas, versos de uma única palavra, engenhosas aliterações e translineações. O corpo é central, descrito como “baconiano” (músculos, tendões, hematomas), mas tratado como se as figuras fossem pequenas divindades da Antiguidade, numa antiguidade vivida hoje, com referências contemporâneas como catacumbas, bandeiras de seis cores e aplicações de telemóvel.
O sarcasmo é uma marca do livro, surgindo da conjugação e denúncia de elementos jurídicos (“éditos”, “legítima defesa”, “non habeas corpus”) e académicos (“satisfaz bem”). Entre as influências apontadas está o poeta britânico Thom Gunn, pelo formalismo e homoerotismo inquieto.
O livro abre com citações de Amelia Rosselli, Oksana Maksymchuk e Robert Frost. Entre os poemas, destaca-se “Marcha das Aspas”, que explora temas como a obediência, a rotina e a passagem do tempo, com versos como:
“Na lapela, engastas flores que os dedos mancham.
Escutas “norte e marchas como mula mansa.
Sem trela te trazem. Não julgas. Não mordes.
Doce, o som das ordens. Dão-te corda, e corres.
Feiras, para que compres côdeas que emagrecem.
Férias, para que “fujas”: depressa regressas”