Opinião

Letras | Uma futura sogra à prova de metáforas

25 mai 2026 11:57

Cocktail literário, recheado de personagens muito bem construídas e divertidas, que tornam a leitura fluída, profunda e voraz

Passava por ele várias vezes e prometia dar-lhe atenção. Ele olhava-me, clamando por uma oportunidade; afinal era um clássico. Uma viagem escolheu-o: O Carteiro de Pablo de Neruda, o aclamadíssimo clássico de António Skármeta, escrito em 1985, publicado em mais de 30 línguas e adaptado ao cinema.

Skármeta, redator de um pequeno jornal, queria ser escritor, mas deixava os romances a meio. Assim o revela no prólogo do livro. O director do jornal encomendara-lhe, um dia, um serviço à beira-mar, num ambiente bem mais sadio que o da escura redação, para fazer uma peça sobre o poeta Pablo Neruda. O autor, entusiasmado, prolongou a sua estada na Ilha Negra, acabando por conhecer as personagens desta novela que se narra a partir do final da década de 1960 e que enquadra a sucessão de mudanças políticas no Chile com a eleição de Salvador Allende.

É neste universo que conhecemos Mário, o jovem e pobre pescador que se converte no carteiro da Ilha Negra e que apenas tem um cliente: Pablo Neruda, com quem vem a desenvolver uma peculiar relação. Mário aprende o que são metáforas com o poeta. Um ensinamento muito oportuno quando cai de amores por Beatriz, que serve na taberna da praia. As palavras aquecem o coração e a sensualidade da jovem na flor da idade, mas esbarram contra uma mãe imune a metáforas, a palavreados e a bla-bla-blás. A matriarca, experiente e sabida, percebe logo o rumo das intenções de Mário, em quem não vislumbra futuro para a filha: “Prefiro mil vezes que um bêbado te apalpe o cu no bar, a que te digam que um sorriso teu voa mais alto que uma mariposa!”.

António Skármeta revela no prólogo que “enquanto outros são mestres da narração lírica na primeira pessoa, do romance dentro do romance, da metalinguagem, da distorção de tempos e espaços, eu continuarei adscrito a metáforas transplantadas do jornalismo, lugares-comuns…”. Ainda bem que assim continuou, pois é todo este cocktail literário, recheado de personagens muito bem construídas e divertidas, que tornam a leitura fluída, profunda e voraz.