Opinião
Mãos lavadas e toalhas limpas
Mais do que um político, vi o homem velho, de olhos mansos e coração estalado, como uma porcelana preciosa que não aguentou a bravura de um vento repentino. António Guterres despediu-se do cargo, mas não das suas convicções
"Desconfia da elegância com que se explica a violência”, o Dinis H. Machado escreveu esta frase no seu romance A Gramática da Guerra, e eu invejo-o porque gostava de ter sido eu a escrevê-la. Mas não fui.
Contenta-me saber que alguém a escreveu e está bem assim. No passado 22 de setembro, António Guterres discursou pela última vez enquanto secretário-geral da ONU. Eram 9 horas em Nova Iorque e 15 em Portugal.
Mais do que um político, vi o homem velho, de olhos mansos e coração estalado, como uma porcelana preciosa que não aguentou a bravura de um vento repentino.
António Guterres despediu-se do cargo, mas não das suas convicções. Não disse nada que não tivesse já repetido exaustivamente. Tantas vezes o ouvimos falar dos perigos, na altura emergentes, e agora reais, palpáveis, à vista de todos, materializados nos braços de todos. Nos deles e nos nossos, porque deixámos que o mundo, cada vez mais andrajoso, nos enfraquecesse a voz, nos adormecesse a alma.
Deixámos que nos estragasse o sangue e as palavras que já não servem para falar de paz. Nem de humanidade. Nem de direitos. Nem de nada. Simplesmente porque o desapego coletivo nos foi roubando capacidades fundamentais.
Dentro dessas capacidades está a aptidão para o diálogo. E aqui falhámos, todos, pois, a única habilidade capaz de sustentar o mundo é o entendimento.
Durante 10 anos ninguém ouviu António Guterres, e nós também não porque nos fomos calando, deixando o homem falar para surdos. Continuámos a enxugar as mãos a toalhas lavadas, enquanto outros como nós tinham já os tapetes de casa manchados com o sangue dos filhos mortos; outros ainda nem tapetes tinham porque o chão se fez de pó e pedras.
Mas isto é tudo muito longe, não arrelia porque não suja a toalha com que enxugamos as mãos.