Opinião

Mi casa es su casa

9 jun 2026 21:30

Queremos ser outra coisa. Que não somos, nem conseguimos ser. Queremos ser orientais. Queremos ser “americanos”. Queremos ser latinos como o Bad Bunny

O amor-próprio dos Europeus morreu.

A culpa é da culpa. Do colonialismo.

Da história. Do passado. Do presente. Do futuro.

Nossa.

E por tudo isso queremos ser outra coisa. Que não somos, nem conseguimos ser.

Queremos ser orientais e corremos de braços abertos, até com alguma doce ingenuidade, aos cursos de yoga, de reiki, ao karma do Jainismo, à Samsara, ao jejum, sem termos corpo ou alma preparados para tal paz, torção e privação.

Queremos ser “americanos” e praticamos o fast life, fast food, fast thinking, Obama para aqui, Trump para ali, consumir, ver sem refletir, e ajudar a apagar a luz do farol que era a Europa cultural, essa mesmo, lembram-se a da chanson française, do Zola, dos pré-socráticos, da Lotte Lenya, do Murnau, da Mercedes, da Grundig, da Siemens; e não a das tampas coladas às garrafas, a Europa reguladora das quotas, da moral, da finança, que deixa a água escapar, tal como as tampinhas novas e nos encharca o pensamento com regras e diretivas.

E, acima disto tudo, queremos ser latinos como o Bad Bunny.

Queremos entrar na sua casa, na casita, e ver-lhe os calções e o copo chill de plástico e abanarmos o cu ao som do seu ativismo social, aquele mesmo que não cabe nos seus próprios live nation concertos, de VIP’s sem espaço para respirar, de bilhetes sem visibilidade, mas o que importa é mesmo o entra e sai da casita, não se ele sabe cantar ou não, ou se sabemos apontar Porto Rico no mapa, se alguma vez ouvimos salsa venezuelana, Óscar D’ Leon, que é isso, que es eso?, a objectificação da emancipação da mulher mandada às urtigas no meneio mais famoso do universo.

E a casita diz-me tudo que preciso de saber sobre uma Europa sem-abrigo.