Editorial

Movimento Perpétuo da Inércia Regional

15 jan 2026 08:00

Até quando vamos aceitar ser tratados como região periférica quando somos, de facto, motor económico?

Dizem que a união faz a força. Acredito nisso, porque já embarquei em iniciativas conjuntas que alcançaram sucesso, quando todos nos diziam que o fracasso seria inevitável.

É por isso que gostaria de ver, numa região pujante economicamente como a de Leiria, homens e mulheres capazes de se envolver e levar a bom porto projectos cívicos e de desenvolvimento, capazes de alavancar o território.

Há alguns honrosos casos onde isto se verifica, felizmente. Porém, nem sempre é assim.

Empresários, políticos (deputados e autarcas dos partidos dos vários Governos), personalidades da cultura e do associativismo parecem, por vezes, contaminados pelos versos da canção “Movimento Perpétuo Associativo”, dos Deolinda:

“Agora sim, damos a volta a isto!/Agora sim, há pernas para andar!/Agora sim, eu sinto o optimismo!/Vamos em frente, ninguém nos vai parar!/Agora não, que é hora do almoço... /Agora não, que é hora do jantar... /Agora não, que eu acho que não posso...”

Escrevo isto a propósito de, finalmente, o trânsito de pesados na A19 – criada para impedir a degradação do Mosteiro da Batalha, prometida há 25 anos e construída há 15 – passar a ser isento.

Também no IC36 se ganhou o direito a isenção.

Reparem: não é a abolição total das portagens em duas vias estratégicas e estruturantes, numa região asfixiada pelo caos do trânsito.

É uma isenção apenas para os pesados e que até sofreu uma tentativa da tutela para não ser aplicado. Mas isso é outra história.

Agora, quero que imaginem portagens nas vias de cintura externas de Porto e de Braga.

A população e as forças vivas dessas passariam 15 anos a pagar bilhetes de portagem?

A resposta é óbvia.

Não permitiriam. Não aceitariam. Não se conformariam. E aqui reside o cerne da questão.

Não é a falta de recursos ou de argumentos que nos falha.

É a incapacidade de transformar indignação em acção, de converter diagnósticos em soluções, de manter o ímpeto para lá da hora do almoço.

Na nossa região, descrita como “gigante económico e anão político”, escasseia a vontade, a coordenação estratégica e, sobretudo, a persistência colectiva.

É tempo de olhar para o espelho e perguntar quantas batalhas mais estamos dispostos a perder por falta de fôlego?

Quantos projectos estruturantes continuarão adiados porque “agora não é boa altura” para sair de casa e fazer?

Até quando vamos aceitar ser tratados como região periférica quando somos, de facto, motor económico?

A união faz a força. Mas só quando deixa de ser movimento perpétuo de boas intenções e se transforma em acção concertada e persistente.