Opinião
Música | A oeste nada de novo
O que falta a muitos é a capacidade de entender que a arte não é um concurso de notas, mas também um campo de batalha
No palco do Super Bowl 2026 — o intervalo mais visto do planeta —, o porto-riquenho Bad Bunny brilhou. Num mundo rasgado por divisões políticas e sociais, cada verso seu foi um lembrete incómodo. E, claro, não faltou o coro dos puristas, aqueles que só aplaudem a “democracia” quando ela veste a sua camisa. Mas é precisamente aqui que a música se revela: não uma arma de destruição, mas de resistência, de afirmação, de presença.
É claro que Bunny tem talento, caso contrário o cantor não estaria ali. O argumento é só preguiçoso. O que falta a muitos é a capacidade de entender que a arte não é um concurso de notas, mas também um campo de batalha. E Bad Bunny, com a sua performance, não estava só a cantar — estava a marcar território. Algo que, claramente, incomoda quem prefere o mundo em surdina. Bad Bunny cantou para milhões, em espanhol, sem pedir licença. Porque o talento não se resume a notas musicais — é também coragem, é ocupar espaços, é fazer-se ouvir quando outros preferem o silêncio.
Na mesma noite em que os Estados Unidos assistiam a um espetáculo de unidade linguística e cultural, Portugal celebrava, a 8 de fevereiro, uma vitória eleitoral esmagadora. Mas em Leiria a festa não chegou. Dias antes, Lisboa, distraída como quem observa uma tempestade ao longe, demorou a perceber que o temporal tinha batido aqui à porta. Em vez de ação, mandou dois batedores — como se ainda vivêssemos na Idade Média — para “ver o que aqueles da terrinha andavam a dizer”. O resultado? Quando finalmente olharam para Leiria no mapa, a população já estava entregue a si mesma, a fazer o que podia sem ajuda.
Não tardou a chegar a hipocrisia da caridadezinha e o espetáculo do vazio: quem fez um vídeo de mangas arregaçadas a coçar o queixo ou quem gravou com chuva falsa. Já vi demitirem-se por muito menos, mas a falta de vergonha ganhou.
Dirão que a região de Leiria teve azar por ter sido a primeira. Mas o azar não foi geográfico, foi político. O que Leiria precisou — e não teve — foi de um tempo presente que lhe foi negado a 28 de janeiro. Sem presente, como construir futuro? Inevitavelmente o mediatismo esmorece, mas os problemas ficam. E, no entanto, a vida insiste: a viola voltará a tocar na Bajouca, o rancho reorganizar-se-á na Bidoeira de Cima, a filarmónica não se calará em Chãs. Porque as mãos que hoje limpam escombros e saram feridas são as mesmas que, amanhã, reconstruirão os palcos.
Há quem saiba, agora, o que é carregar uma palete de telhas ou subir a um escadote no terceiro andar, apesar das vertigens. São gestos que não pedem permissão. Assim como a democracia — a verdadeira — não precisa de autorização para vencer. Precisa, isso sim, de gente que não desiste.